MENINO MORTO NO MEIO DA RUA

Menino morto no meio da rua
poça escarlate de olhares dis-
torcidos, cores derretidas,
prédios revirados, vozes
veladas, mundo desabando.

Menino morto no meio da rua
as tuas Mãos rasgadas
não te forneceram escudo
hábil contra os tiros à queima-roupa
que rebentaram em teu peito.

Menino morto no meio da rua
buscarei para ti o socorro tardio
de algumas folhas de jornal:
não podes mais estar exposto
aos pombos que dardejam dos fios...

Menino morto no meio da rua
bandeira rasgada de osso branco
folhas verdes e plasma cor de anil
escorrendo pelo bueiro: continuas
na gota que risca o ar como estrela.

Menino morto no meio da rua
a tua imagem e o teu drama
imprimiram-se nas páginas
que há pouco serviam-te
de Manto contra o frio da noite,
e agora pendem das bancas,
e o dia as consome, sonolento,
entre gole e outro de café com
sangue: milagre bem carioca,
Menino Morto No Meio da Rua.

Soube agora que te chamavas
José e foras morto por engano
no lugar de um outro engraxate
menos adestrado que tu
na arte de devolver a face.

Milagres e histórias do meu Rio,
minha cidade de azuis, amarelos
e rubros tons doridos; mais um mártir,
um Cristo, entre miríades de outros...
Menino Morto, José — ensina-nos a orar!


 


Poesia do Jovem Igor Buys,

abstração que utilizo para referir toda a minha produção poética dada

entre os dezoito e os vinte e cinco anos, sendo que esse é um texto

da primeira fase do J. I. B., a qual confina com os meus vinte e um.

Publicada no livro “Manelo de Áscuas”; 1999.

 

 

Rafaella Kalimann missionando na África

 

 

 

 

 

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