ENTREVISTA

DE 30 DIAS

 Entrevista de trinta dias corridos à  editora, colunista e atriz Marina Cervini

POESIA “ACRÓSTICO DOCE”:
UM ACRÓSTICO IDEOGRÁFICO

Marina Cervini: Igor Buys, você poderia discorrer sobre a figura feminina ilustrada através das belas palavras da poesia “Acróstico Doce”?

 

Igor Buys: ACRÓSTICO DOCE é uma poesia do jovem Igor Buys; i.e., integra aquele meu período autoral que vai dos dezoito aos vinte e cinco anos. Foi escrita, mais exatamente, no princípio desse período e, depois, ao longo dos anos, revisada, creio, várias vezes. Por qualquer motivo, não incluí o texto no meu livro de juventude “Manelo de Áscuas”, publicado em 1999; talvez tenha entendido que não estava suficientemente revisado e pronto.

 

Realmente, há diversas figuras femininas no texto, correspondentes a diversas personificações, ou prosopopéias. A primeira dessas personificações é a da lua como deusa apaixonada — e algo enlouquecida, lembrando, um pouco, o mito de Endimião e Selene, a que retorno sempre, já desde então, embora não seja citado um amante mortal para a deusa; a segunda é a da lua, novamente, mas como uma noiva viúva inominada; e, enfim, há a personificação da noite como mulher agaláctica, sem seio à mostra, sem leite que doar ao mundo, aos noctâmbulos, os filhos da noite, qual os poetas. Não há uma musa por trás dessas figuras; o processo das musas, propriamente dito, inclusive, ainda nem fazia parte daqueles que o jovem Igor Buys adotava. Para ele — o jovem I.B. — poesia era apenas forma; o conteúdo era insignificante para caracterizar o texto como poético e devia ser colhido a esmo, da forma menos intencional possível, a fim de que ficasse enfatizada ao máximo essa compreensão estética, conceitual da arte de versejar.

Nesse meu período em questão, têm destaque especial os textos que correspondem a uma forma criada por mim, sob influência dos escritos de Décio Pignatari a respeito de semiótica peirceana e literatura: — o acróstico ideográfico. Consiste essa forma no emprego da margem esquerda dos versos como região de significação onde a escrita fonética — e simbólica — e uma escrita a ideográfica — e icônica — algo fugidia se encontram e intersectam para continuarem a se expandir, cada qual no seu plano distinto de significação. Em ACRÓSTICO DOCE, o ícone ideográfico construído a partir da imagem visual dos caracteres alfabéticos D, O e C corresponde às fases da lua, respectivamente: o Quarto Crescente, a Lua Cheia e a Para Lua Nova, fase que antecede à lua nova. No lugar da letra E, que fecharia o acróstico clássico, formando o vocábulo “doce”, são postas, então, as reticências como signo da lua nova, i.e., da ausência da figura lunar. E, finalmente, na segunda estrofe e último verso, o E é posto à margem esquerda do verso, como um segundo signo da ausência da lua e, para os observadores mais esmerados, possivelmente também como o ícone de uma — chave, a chave decifratória do código poético, pois, logo adiante, reaparecem as reticências, agora identificadas à constelação das Três Marias. Moral da história: bem simples: as Três Marias, tal como as reticências mesmas que as inconizam no texto, sempre estiveram presentes, ao final de todos os versos da poesia, em cada fase da lua e da noite, que nunca foram assim tão agalácticas — lá estavam as suas galáxias... — apenas não atentávamos para elas, voltando a nossa atenção, de todo, à contemplação da lua delgadamente esboçada através do expediente ideográfico, ou ideogramático, para usar de um termo muito concretista e pignatariano.

 

Observe-se que, com as revisões do texto, o C maiúsculo, como signo ideográfico da Lua Para Nova, foi deslocado do canto esquerdo do terceiro versos — encetado, ainda, por um “c” minúsculo — para a palavra “Céus”, pois que, aí posicionada, a letra é ícone, outrossim, da pétala de bem-me-quer lançada ao alto.

 

Vê-se que tudo o que o jovem Igor Buys estava interessado em fazer com as palavras eram estudos semiológicos desse naipe. O ícone — signo que refere o seu objeto por semelhança direta, ou “analogía” (αναλογία) —, dentro da classificação peirceana dos signos, pode ser pensado como uma espécie de janela para a essência, na medida em que contém a forma mesma da coisa em si, apenas reduzida em — quantidade de informação. No mito da caverna, de Platão, por exemplo, as sombras das estatuetas vistas pelos escravos projetadas nas paredes do seu claustro são ícones das estatuetas mesmas, as quais, por seu turno, são ícones dos animais como se os vê, diretamente, no dia ensolarado lá fora. Porém, as imagens visuais dos animais sob o sol ainda são ícones dos animais em si, os quais nos escapam sempre, pois não apreendemos pelos sentidos toda a informação contida na sua essência. Hoje, lançando mão da linguagem científica, poderíamos dizer que os animais são compostos de células, de moléculas, átomos, partículas subatômicas, sistemas biológicos e físicos os mais complexos, os quais, simplesmente, não podemos enxergar ao olharmos para eles. Porém, tais sistemas são de todo esquemáticos e supositivos, não capturando, eles próprios, “in totum”, senão em parte, e sob certas perspectivas, sempre provisórias — porque científicas —, a natureza pura, a essência do que são os animais.

Não obstante, o que vemos dos animais são imagens analógicas, ou icônicas da sua natureza, as quais contém parte dessa essência, numa relação de — mesmidade, que vai-se tornando decrescente, vai minguando..., quando, dos vislumbres diretos, passamos às estatuetas e, finalmente, às sombras das estatuetas. Nesse jaez, os caracteres e sinais de pontuação alfabéticos empregados como ícones ideográficos da lua, da pétala e da constelação das Três Marias contêm quantidades um tanto fugidias e tênues do conteúdo informacional, i.e., da essência dos objetos que significam, mas, ainda assim, existe relação de semelhança direta, ou “analogía” entre as representações e as coisas mesmas representadas. Tal é o fascínio do ícone. O símbolo, em oposição, apenas se relaciona ao seu objeto por meio de uma — lei, ou convenção; i.e., por meio do que Peirce chama, em sua Semiótica, de legissigno.

As metáforas que a poesia produz também são ícones, consoante a classificação de Peirce. Entrementes, a base da significação através da linguagem escrita no Ocidente é simbólica, convencionada — e, por isso, talvez, Paulo de Tarso enfatize que “a letra mata”... —, ao contrário do que ocorre no Oriente, onde a escrita icônico-ideográfica tem largo emprego. Tornar a poesia mais intensamente icônica, e, de algum modo, mais capaz de captar a essência das coisas, já desde a escolha dos signos visuais com que construí-la no seu ponto máximo de tensão, é, então, o que se procura fazer aí, em ACRÓSTICO DOCE, um acróstico ideográfico, peça literária que não nega parentesco com as artes plásticas, e que incorpora um elemento lúdico, um pequeno desafio à inteligência pura e à faculdade da simples atenção: decifrar o código poético nos termos explanados e, se possível, sua mensagem de fundo, relacionada à metafísica, enquanto estudo das relações das imagens, ou signos com as coisas mesmas.

24 de maio de 2014