ENTREVISTA

DE 30 DIAS

 Entrevista de trinta dias corridos à  editora, colunista e atriz Marina Cervini

“LUA E AURORA”:
DUAS FORMAS DE AMOR E SUAS EXPRESSÕES POÉTICAS

Marina Cervini: Igor Buys, você poderia falar um pouco sobre a leveza, ritmo e intensidade apaixonante da poesia "Lua e Aurora"?

Igor Buys: Bem, a Lua e a Aurora — grafadas em maiúsculas —, nesses versos, são usadas como metáforas para descrever como o eu-lírico se sente em relação a duas mulheres distintas e marcadamente diferentes na apreensão que faz delas. Ele está dividido, está sob o signo do arcano Enamorado, poderíamos dizer, poeticamente. E os seus sentimentos por cada qual têm sabores bem distintos, em tal momento.


Aquela que é a Lua nessa poesia — e não é a mesma lua que aparece em vários outros textos meus, como metáfora, outrossim, de uma mulher... —; aquela que é a lua nessa poesia causa afetos traduzidos, em larga medida, pela forma literária, pelos tropos com que se trabalha. As aliterações em “l” e “s” e as ocorrência repetidas do “m” na primeira estrofe expressam fluidez, alívio; aquela forma de recepcionar, de abrigar que em “GUARDA-ME” está discutida, minudentemente. As matérias-primas evocadas, bem assim, convergem para ratificar essa feminilidade pura, esse elemento côncavo, que cede fácil ao tato, à penetração, sendo, portanto, vaginal, e que, mais além, é também, notadamente, conforto, abrigo: é materno: é uterino. Os materiais em questão são “seda”; “bruma”, que ecoa no adjetivo “branda”; “melena”, essa mesma melena sedosa, — líquida, fluídica, de outros momentos autorais nossos, que “lava” e, algo sagrada, “enleva”, ao mesmo tempo, o eu-lírico. O ambiente sígnico construído comporta, observe-se, no esquema de cores que o torna aconchegante, sossegado, — “negro” e “lilases”... Enfim: o eu-lírico se mete aí, nessa estrofe, bem como um feto mesmo — “(c)ego”, inclusive — em meio a um negror fluídico, perpassado de sonhos cândidos, lilases: lunares.

Na segunda estrofe, a cor predominante, desde o primeiro substantivo, “aurora”, é o vermelho. Os versos são mais... crespos, podemos dizer, por conta do emprego repetido do “r”, que “rasga” — e, portanto, penetra, em alguma medida... — com o ápice desse efeito nos encontros consonantais em “tr”: “transvasando-se”, “contradição”. O /t/ é um fonema que — dental ou palatal, conforme os regionalismos — traduz, de per si, bloqueio e rompimento brusco, pois deriva do posicionamento da língua contra o fluxo do ar, para deixá-lo passar, em seguida, de estalo. E o “t” é outra das letras com que se prepara a textura da segunda estrofe, onde há amor contraditório, apaixonado, sofrido, sangrado, encarnado. Onde há “pantera” — animal fulvo, dourado —, e “pantera menina”, “recém-nada e recém-tudo”: puro contra-senso, que conduz à demência, ao desequilibro, ou seja, a um “páthos”, mas, ao cabo, extasia, também, à sua maneira. A mulher de elementos fálicos, que penetra, que tem garras felinas lacerantes, é desejada pelo eu-lírico, é amada por este, mas, se algo nela o atrai, algo também o repele, e tal conflito, em última análise, é o encontro do amor e do ódio, que está explicitado em outros versos nossos.


17 de maio de 2014