ENTREVISTA

DE 30 DIAS

 Entrevista de trinta dias corridos à  editora, colunista e atriz Marina Cervini

SAUDADE E SOLIDÃO,
“AMOR FATI”,
ROMANTISMO-REALISMO

Marina Cervini: Igor Buys, quais sentimentos, além da saudade, estão expressos, de forma subjetiva, na poesia “Saudade”?

Igor Buys: Marina, o vocábulo “saudade” é considerado o mais belo da língua portuguesa e não é à-toa. Essa palavra, de significado tão claro e profundo para nós, não pode ser dita ou pensada com exatidão, da maneira como o fazemos, em qualquer outra língua. Deriva-se, conforme o Houaiss, do latim “solitas,atis”: unidade — e atente-se para esta primeira conotação: unidade —, solidão, desamparo, retiro. "Solitas,atis" deriva, no latim, de “solus,a,um", que no espanhol deu em “soledad”, no português, em “saudade”, consoante ainda o dicionário citado. Argumentam alguns literatos, ademais, que pode ter havido um contágio do verbo “saudar” na formação de “saudade”.

Solidão, no sentido próprio, é o sentimento da unidade do eu. Da completude de ser, portanto. “Vide” o que diz a respeito Schopenhauer*. E esse sentido, próprio, de solidão é o que emprego quando respondo sobre qual seria o bem mais elevado para mim: “Não sei se é a solidão ou o saber usufruir da solidão”; lembra-se? O saber usufruir da solidão é estar em solidão no sentido próprio.

 

O isolamento, de fato, para nós, humanos, é impossível: nós pensamos com uma mente que é, de um lado individual, de outro lado, coletiva. Pensamos com um intelecto agente e com um intelecto possível, ensinava Aristóteles. Sendo que há alguma relação, algum nexo entre esses intelectos e os hemisférios cerebrais, direito e esquerdo, com que a ciência indutivo-experimental trabalha hoje. O nosso eu é, em parte “id”, em parte, superego, demonstra Freud. Ou seja: tem as referidas dimensões individual e coletiva. Pensamos por palavras, sentimos em função do que pensamos; somos seres lingüísticos, que habitamos o campo da linguagem. E, nesse sentido, “o homem (ou, melhor: um homem) apartado da sociedade é uma ficção”, como propunha o jurista alemão Jellinek (1851-1911). Não podemos, efetivamente, estar isolados, mesmo no cume de um monte, após uma escalada sem companhia, pois estamos pensando e sentindo juntos, coletivamente, com a mente e com a alma da nação, ou, para usar de um termo teórico do meu glossário, com a mente e a alma — ”dos-homens”. I.e., estamos pensando e sentindo com os significados dos termos na sua carga emocional, afetiva, inclusive. Para nós, “os-brasileiros”, se está “tudo azul”, vai tudo muito bem; para os britânicos, estar “blue” é estar bem mal. O azul, na nossa mente e na nossa língua, está carregado de simbolismos positivos associados à paisagem tropical; já na ilha britânica, do mar sai o sustento, o alimento, mas também sopra o vento frio, úmido que traz a doença, o estremecimento, a morte por congelamento... E por isso é tão negativa essa mistura promíscua de idiomas que decorre da imposição, da obrigatoriedade do aprendizado da língua inglesa no ensino básico e dos processos de aculturação e globalização ou imperialismo: por gerar uma esquizofrenia profunda no falar, no sentir, no pensar, e uma funda perturbação em todo esse ADN da humanidade em cada qual, processo que culmina com o surgimento entre nós de pessoas que se parecem, sem perceber, com aquele teratóide de Umberto Eco, personagem de “O Nome da Rosa”, que fala, ou balbucia uma mistura de idiomas e, metaforicamente, tem feições animalescas, desumanizadas. A língua é fortemente telúrica, atrelada à paisagem, à terra, no que esta comporta de mais sutil e, concomitantemente, mais forte. Cuspir a língua dos povos dominadores sobre a nossa é lançar anátemas no ambiente, os quais são devolvidos por este ao próprio apátrida, de uma forma ou de outra, cedo ou tarde.

Mas, retornando à idéia de saudade, creio que ela comporte tudo o que essa poesia pretende transmitir em relação ao estado de alma do eu-lírico. A saudade impede a solidão no sentido próprio, i.e, a unidade, a completude do eu consciente de haver um Eu profundo para aquém — i.e., mais para cá, mais interno — que o eu-individual e o eu coletivo, este mundano, temporal, aquele pré-mundano, indivisível, ilimitado, atemporal, mas igualmente constituído de representações das coisas mesmas. E esse Eu profundo, absoluto — logo, pré-temporal —, é conforto pleno, é sossego em relação ao caráter agônico das coisas no tempo. Poderíamos aqui, então, falar em solidão, no sentido impróprio, aquele que eu mesmo utilizo, quando menciono os momentos de solidão que o amor envolve no “book proposal” de “Versos Íncubos”, o que vai se repetindo na orelha do livro, no booktrailer e etc.. O amor, na sua tragicidade, na sua condição de efemeridade e transformação — tão bem flagrada pelo Vinicius, quando diz que “o amor, o sorriso e a flor se transformam depressa demais” — traz momentos dessa solidão, no sentido impróprio, ou, deveras, dessa não-solidão, no sentido próprio, dessa não-unidade de si consigo. Está-se, então, dividido; “eu estou em milhares de carros, eu estou ao meio”, diz também uma poetisa, com grande propriedade. O eu está consciente da ausência do outro. E essa ausência se torna uma presença, um fantasma.

 

O elemento infernal, ou tartáreo da — falta é o que caracteriza essa paixão. A alma procura, indefinidamente, pelo que não pode alcançar, tal como nos suplícios tartáreos descritos pelos gregos, todos e cada qual. Há um moto-contínuo na incorporação da falta, que faz dela o apanágio da noção de inferno. Mas a saudade, a nossa apreensão, lusófona, da falta de alguém é menos sofrida, pois há, podemos aceitar, o elemento “saudar” somado, lingüisticamente, a esse estado agônico. O eu-lírico, na poesia "Saudade", não está apenas “missing”; não está apenas sentindo a falta pura, trágica e terrível de alguém. Esta teria uma cura simples, rápida, estratégica para um dono daquele “coração maduro” de que falamos por alto, recentemente, e dá título a outra poesia do livro. Cura-se a falta no campo amoroso, — transferindo sentimentos. Eu tenho um amigo de infância que, quando tem uma rusga com uma amiga, ou namorada ao telefone, nem põe o aparelho no gancho: liga, de imediato, e por princípio, para outra amiga. E mantém, assim, a sua “ataraxia” (αταραξία), sua imperturbabilidade cética; constrói, ao longo dos anos, aquela segurança emocional que também foi tema nosso recente.

 

A transferência de afetos está em a natureza. Vi, por exemplo, um documentário incrivelmente trágico, triste e fascinante em que uma leoa, cujos filhotes desapareceram após o parto, adota o filhote de um... pequeno antílope, ou veado, daqueles que costumam ser suas presas. E, sem querer, a mãe felina vai machucando e matando o pobre animal de fome e esfoladuras, por não saber como o alimentar, nem como o acariciar, com a sua absurda força. Mas está visto ali o que é a capacidade dos viventes de transferir afetividade. É a coisa mais simples que se possa pretender fazer: carente, i.e., corroído pela falta de alguém, naturalmente nos apegamos a quem estiver mais próximo e pudermos identificar como destinatário, ou destinatária segura para a nossa paixão. Isso racionalizado e treinado..., ora, é até uma covardia em relação aos que não se adestraram em o fazer.

Porém, é possível, ainda, mesmo de posse de recursos tais — que são os que o Vinicius recomenda, constantemente, por exemplo, no trecho de poesia: “Quem depois voltou / Ao amor, ao sorriso e à flor / Então tudo encontrou / E a própria dor / Revelou o caminho do amor / E a tristeza acabou” —; mesmo a quem possua o tal coração maduro, resolver tragar o fel da falta, de mistura ao mel desse saudar da ausência presente do outro. É possível, como postura romântica de um tipo especial, que já dissemos romântico-realista — e que é, entendo, a do Vinicius, e por isso o cito, repetidamente — apreciar o belo trágico presente em tais momentos, que não são mais de falta pura, senão de saudade, essa forma lusófona especialíssima de nostalgia. A saudade é terrível ainda: a falta está lá, o trágico está lá; mas ela envolve o que outro romântico-realista fundamental, Nietzsche, chamou de — “amor fati”, o amor dos fatos, por mais duros, por mais trágicos que sejam. Isso pressupõe coragem, inelutavelmente. E diria, também, que a consciência da capacidade de sair do processo de falta, quando desejado. Quando percebida aquela vigília da perda, passageira ou definitiva, como suficiente. Não sabe sentir saudade autêntica quem não sabe como pôr um ponto final a tal processo, o qual precisa ser voluntário para não ser apenas... “missing”. Para ser um enfrentamento novamente amoroso e enternecido da própria ausência do amor, pela falta do objeto do amor para quem o canalizar. A poesia “Saudade” contém versos muito enternecidos; a saudade é dita “[...] dor que faz sorrir / E rir como topada no joelho”. E isso demonstra que o eu-lírico vive a sua saudade com “amor fati”, corajosa e ternamente, por princípio, por vontade, ao modo peculiar dos lusófonos.

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*Schopenhauer: “O homem só pode ser si mesmo por completo, enquanto estiver sozinho; por conseguinte, quem não ama a solidão, não ama a liberdade; pois o homem só é livre quando está sozinho. Cada qual evitará, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor do seu próprio ser. Porque na solidão o mesquinho sente toda a sua mesquinhez, o espírito elevado, toda a magnitude de sua grandeza.”.

15 de maio de 2014