ENTREVISTA

DE 30 DIAS

 Entrevista de trinta dias corridos à  editora, colunista e atriz Marina Cervini

O CICLO DOS CICLOS E A PERMANÊNCIA DO MESMO
A PROPÓSITO DA POESIA
“EU TANTO BRINQUEI DE DIZER QUE TE AMAVA”

Marina Cervini: Igor Buys, a poesia “Eu tanto brinquei de dizer que te amava” fala sobre a finalização de um ciclo de sentimentos? Você poderia dizer como os ciclos são expressados em sua obra?

Igor Buys: Marina, os ciclos são o que há de mais inerente à natureza. Tudo em a natureza é cíclico. Nietzsche, bebendo nas águas do pensamento oriental, formulou a idéia de eterno retorno do mesmo, muito coerente com o que a ciência contemporânea propõe sobre a natureza. Do Grande Bangue, a origem suposta do universo, ao fim das coisas — já chamado de “Big Crunch”, de “gnaB giB” —, tudo se resolveria num ciclo dos ciclos. Ora, se acatarmos essa idéia e a somarmos ao hodiernamente indiscutível conhecimento da relatividade (e subjetividade coletiva) do tempo, temos que as coisas em si simplesmente “pulsam” lá, onde estão, onde sempre estiveram; e as aparências, bem assim, pulsam — aí, no tempo, onde, como reflexo, sempre estiveram também, onde sempre estarão. Ou seja: se pudéssemos contemplá-los de fora do tempo, o “Big Bang” e o “gnaB giB” estariam, ambos, à nossa frente, esgrimindo-se, combatendo-se, — pulsando, como díade caótica, para gerar um terceiro fundamento, que é a aparência: o fenômeno. E, no seio desse universo agônico, desde a essência até as suas imagens, ou signos; no seio desse ir-e-vir erótico, desse malho, desse enleio cooperativo, conquanto doloroso das potências, tudo o mais que desabrocha — filial da sua paixão, verifica-se, é, da mesma forma: cíclico.

O mesmo Nietzsche nos ensinou que o texto não possui um em-si: está, “in totum”, no campo das imagens, no território dos signos; logo, o que existem são as — interpretações do texto, nunca um texto absoluto, posicionado para além das efervescências cíclicas mundanas. Eu, de mim, leio nesse texto um ciclo, sim; um fim e um recomeço: o eu-lírico, possivelmente depois de um apartamento em relação à bem-amada, começa a vê-la “mais e melhor”, e começa a reconhecer o sentimento por ela em outra esfera. Acabou aquela fase de brincar de dizer “eu te amo”, de usar dessa expressão apenas como carícia; ele quer, agora, inclusive, deixar de tê-la (à bem-amada) como musa e realizar o que, na primeira fase, ficou esboçado como projeto, como potência. E esse movimento seu interior é confundido no texto aos ciclos da natureza enquanto casa — “oíkos” —, enquanto edifício da linguagem, que apreende, dentro do ciclo, do jogo do individual e do coletivo, a “graça” e a “garça” como parônimos, como seres (i.e., agregados sígnicos, ou imagéticos) aparentados. A graça e a garça, passam pelo “guache” da paisagem e, enfim, ecoam e se diluem em “farsa”. “Tocar com a Língua” — como na poesia “CASANOVA ENVILECIDO” — já não satisfaz: a letra mata. O eu-lírico quer mais essência, mais profundidade, menos simbolismo nessa afeição. E, ao que me parece a mim, tende a buscar isso, doravante. Não sei mais para quem escrevi isso, honestamente. Não sei mesmo, de todo coração; embora, seja provável que tenha escrito para alguém, a musa daquele momento. Sei, sim, que dei a poesia para diversas pessoas e que, com esse exercício, o texto foi recolhendo algo de misterioso de cada nova musa. O resto é interpretação: é a — pulsação, o ciclo, como cada um o apreenda e recrie no tempo.


 

31 de maio de 2014