ENTREVISTA

DE 30 DIAS

 Entrevista de trinta dias corridos à  editora, colunista e atriz Marina Cervini

A PROPÓSITO DA CATASTERIZAÇÃO DEFINITIVA DE GARCIA MARQUEZ

EM APÊNDICE 

 

Nota esparsa escrita, originariamente, dentro de uma caixa

da página Igor Buys: Poeta e Ensaísta




Em qualquer lista de dez livros que já li, menciono, sempre, “O amor nos tempos do cólera”; livro que continua me relendo e eu a ele, pela vida adentro. Não existe vida afora, aliás. Nem fim da vida ou da existência. A ciência contemporânea de ponta chega, enfim, a essa conclusão, a que a especulação pura já nos levou, há muito tempo. Que está inscrita, há muito, no pensamento, quando se o lê bem. A catástrofe da noção de tempo objetivo — ou absoluto, como queria Newton — já estava em Parmênides de Eléia, no pensamento oriental, em Kant.

Em geral, ignoro notícias de morte, um gancho muito apreciado, hoje, para compartilhamentos nas redes sociais, como, outrora, nos salões, nas esquinas, clubes. Nos encontros casuais, daqueles em que se não sabe o que trocar, além dos retweets da cultura, entre os quais um dos mais criativos — porque reeditável, em parte — há de ser o velho e bem pontuado: “Sabe quem morreu?!...”.

Ninguém morre; corrompem-se as imagens externas dos corpos — os dos outros, nunca os nossos próprios, diga-se de passagem. O corpo em si permanece onde sempre esteve e o eterno retorno do mesmo garante que as obras das nossas mãos — pulsem onde as depositamos, indefinidamente. Assim, só morre, num certo sentido, aquilo em que se não deposita o ilimitado de nós mesmos: nossos sentimentos, nossas emoções, instintos, nossa verdade íntima, nosso — indivíduo. O mito grego ensina que, por capricho e presente dos deuses, alguns homens, grandes homens, se catasterizam: volvem a constelações, ao desaparecerem. Bem assim, alguns fatos. Ou, deveras, o que o mito sugere, mais profundamente, é que todos, em alguma medida, se catasterizem. Exceto, quiçá, os que vivem no inferno da — falta, da vacuidade, que impele aos suplícios tartáreos básicos do consumismo — ou autoconsumismo — e da repetição indefinida do já produzido, ou alienação. Assim, o sossego do degredo ctônico, no seio da Terra, Gaia, conhecemo-lo sempre, e desde sempre, se não estivermos alienados do nosso em-si, do nosso — aqui; e aos nossos atos enérgicos, apaixonados, intensos ou, simplesmente, integrais, polvilhamo-los entre as estrelas do — agora, ao lado de luminares tais como Garcia Marquez. E eis porque viver, porque pisar o espaço-tempo é, antes de tudo: uma honra.

 


Igor Buys
18 de abril de 2014