ENTREVISTA

DE 30 DIAS

 Entrevista de trinta dias corridos à  editora, colunista e atriz Marina Cervini

POESIA "SALMO" E O SENTIMENTO DEVOCIONAL
EMPATICAMENTE APREENDIDO

Marina Cervini: Igor Buys, você poderia falar um pouco sobre os sentimentos que inspiraram a poesia “Salmo”?

 

Igor Buys: Marina Cervini, essa poesia, SALMO, é outra poesia do — jovem Igor Buys, ou seja, foi escrita naquele período autoral meu, que vai dos dezoito aos vinte e cinco anos. Foi escrita, aliás, exatamente aos meus vinte e cinco anos. E, de início, era dirigida ao Deus masculino judaico-cristão. Daí as alusões bíblicas intrínsecas e explícitas, por exemplo: o quando estou fraco então é que sou forte, de Paulo de Tarso. Algumas traduções da Bíblia falam muitas vezes em descansar no seio de Deus, ou de Jesus; dessarte, mesmo esse seio mencionado era, no primeiro momento, o peito, o abraço do Pai Celestial. O sentimento que inspira o texto é, portanto, devocional. Não que tenha nutrido, eu próprio, em qualquer fase da minha vida o sentimento em questão, mas porque sempre o achei fascinante, tanto nas pessoas circundantes como nos grandes artistas devotos, qual Bach, Vivaldi. Não posso saber se existe ou não um Deus, ou uma Deusa, não intuo, de mim, nada a respeito, e não trabalho com crenças, senão com suposições; entanto posso, e, inclusive, me é necessário, inelutável, dada a minha condição de humano, assumir, por empatia, o sentir de outras pessoas a respeito da intuição que fazem da divindade, e, assim, o sentimento devocional não é estranho a mim: não poderia ser. Ao contrário, estou afeito ao fervor devocional e à beleza da contemplação das coisas pela visada dos crentes. Com as inúmeras revisões, ao longo dos anos, mudei o objeto desse sentir devoto, captado empaticamente, do Deus para a Deusa; esta que perpassa inúmeras culturas, identificada a várias divindades diferentes, mas que é, em suma, a mesma: a Deusa-Mãe, relacionada à fertilidade da terra, à vida, à prosperidade. E tal, a meu ver, foi o grande momento do processo de revisão do texto, que, hoje, está entre os que mais gosto de ter escrito.

Quando compartilho essa poesia, geralmente compartilho, no mesmo ato, a versão livre seguinte que fiz de uma poesia de Mario Benedetti:

SE DEUS FORA MULHER

Versão de “Si Dios Fuera Una Mujer”,

de Mario Benedetti

 

Se Deus fora mulher

É possível que, agnósticos ou ateus,

Não disséssemos não com a cabeça,

Mas disséssemos sim com o baixo ventre.

Talvez nos acercássemos de sua divina nudez

Para beijar seus pés, não de bronze,

Sua púbis, não de pedra,

Seus seios, não de mármore,

Seus lábios, não de gesso.

Se Deus fora mulher a abraçaríamos

Para arrancá-la das distâncias

E não haveríamos de jurar

Até que a morte nos separe

Já que seria imortal por antonomásia

E ao invés de transmitir pânico ou AIDS,

Contagiar-nos-ia com sua imortalidade.

Se Deus fora mulher não se instalaria

Distante no reino dos céus,

Mas nos aguardaria no saguão do inferno

Com seus braços, não cerrados,

Uma rosa, não de plástico,

Um amor, não de anjos.

Ai, Deus meu, Deus meu!

Se para sempre, e desde sempre,

Foras uma mulher,

Que lindo escândalo seria!

Que bem-aventurada, esplêndida, impossível,

Prodigiosa blasfêmia!...

24 de abril de 2014