GARIDALO: O ENGOLIDOR DE ESPADAS DA CIDADE DE TRÊS PADARIA

Sobre o gênero sátira, vide o texto seguinte, introdução, sobretudo:

Apocoloquintose do Divino Cláudio, de Sêneca,

 

 

 

 

 

 

 

 

I

 

 

 

Respeitável público! apresento-vos

 

— Garidalo: o engolidor de espadas da cidade de Três Padaria!

 

 

 

Ora, Três Padaria é uma dessas cidades onde os habitantes

 

Sabem de cor os nomes de todos os vira-latas que vivem ao léu.

 

 

 

E tais bichos vão-se tornando entidades depositárias da fé geral

 

No valor da caridade como cofrinho em forma de bumerangue

 

Para a acumulação e o retorno de boas sortes. Puro interesse!

 

E, como não se conhece semovente mais interesseiro que o cão,

 

Signo melhor não pudera haver para a prática de tal hipocrisia.

 

Tinha lá o Lambe-bota, o Zé Ruela. Tinha o Bode Manco,

 

O Pentei’ de Judas. O Chincheiro Vei. E todos mereciam o resto

 

Do prato e da fruta. O sorriso e lembrança do apelido notório.

 

 

 

Mas Garidalo, menino, foi-se afeiçoar sobremodo por um cão.

 

Perdeu até sua virgindade com o animal! E, quando o bicho morreu,

 

Pôs em outro, e mais outro, e noutro ainda o mesmo nome dado

 

Ao seu primeiro:

 

                                   Piroka.

 

 

 

Assim grafado, com K, por fidelidade à língua alienígena.

 

 

 

Garidalo costumava dizer que sempre quis se dar à astrologia.

 

Mas como não havia cursos de astrologia em Três Padaria

 

Ou nos "arredoir", foi estudando as artes circenses, de início.

 

 

 

E se estabeleceu como engolidor de espadas, criando, logo:

 

O seu — Gran Círculo!

 

 

 

À porta deste, lia-se:

 

"Quando a poirta rainge, aiê é que a poirka toirce...

 

                                   O rabim!"

 

 

 

"Poirka", assim grafado com K, para louvar o idioma alheio.

 

"Afinair": tinha terríveis dificuldades em falar e, sobretudo,

 

"Pensair" na língua que o inserira — parcialmente —

 

                                 Na nação e na condição humana.

 

 

 

Já com Piroka não lhe doía esse problema: uivavam juntos,

 

Bem juntinhos, os mesmos interesses. E o interesse era:

 

                              "Superioir" à idéia: filosofice dele.

 

 

 

"Ítis only bisinéis"! repetia, dedo ao alto, à imagem de Platão.

 

 

 

O "bisinéis deve de pensair poir nóis"! completava.

 

 

 

E, dessarte, — nada era pessoal: tudo era negócio.

 

Ou seja: o "bisinéis" era o vero sujeito da ação despersonalizada.

 

Sujeito, por equívoco, tido como "individuair"; quando, deveras,

 

                         Era uma ideologia, um sujeito coletivo, portanto.

 

 

 

A ideologia — urdida, coletivamente, por uns tantos

 

Fundadores inquestionáveis, como é típico dos

 

Fundamentalismos em geral —; a ideologia da mais-valia:

 

Do logro e da perfídia inerentes ao ato do "bisinéis", ou de

 

                   "Roubair de modo intiligênti".

 

 

 

"Intiligênti" era o mesmo que "ismairti"; ou seja: escroque.

 

Alguém apto a lograr os outros, a fim de lhes vender

 

Por vinte, trinta, cinqüenta... o que sabia valer: dez.

 

E, dessarte, produzir — a "vantági". Ou: o velho capital.

 

A "intiligença" não se media através de testes de Q.I.!

 

(Garidalo odiava esses testes mais que tudo na vida!);

 

Se media, sim: em cifras. E ele tinha pouquíssimas.

 

Mas se esforçava por ter muitas, logo, era, desde já,

 

                Um "bisinéis-mem"! Não um "woirker"!

 

 

 

Garidalo, enfim: era "intiligênti". E não mais uma múmia

 

De jumenta, como costumavam chamá-lo seus "professoir"

 

E colegas nos muitos cursos de astrologia que colecionou.

 

 

 

 

 

II

 

 

 

O trespadarense era um fã apaixonado do poder.

 

E, no final de sua existência, este, enfim, se lhe mostrou

 

Em plenitude.

 

 

 

Apesar do "amoir" ao Piroka, — do primeiro ao terceiro,

 

O engolidor de espadas da cidade de Três Padaria

 

Também nutria outros apetites "sexuair".

 

 

 

O mais declarado era o que experimentava pelos jovens:

 

Os filhos varões da "buirguesia".

 

 

 

Garidalo tinha "amoir" da "buirguesia".

 

Seria capaz de lustrar com a própria língua o assoalho

 

Dos poderosos, e se orgulhava em propalá-lo!

 

 

 

Afim de se "aproximair" de modo "intiligênti" dos jovens

 

Estudantes — achou, pois, de se casar com uma prostituta

 

Trespadarense (oriunda, também, de Três Padaria)

 

De nome Cleide Creusa.

 

 

 

A moça, como é fácil antever, era a imagem da elegância

 

E da "intiligênça".

 

 

 

Neste último dote, Garidalo mesmo a treinou;

 

Quanto ao primeiro..., bem: nem foi necessário.

 

 

 

Vídeos e fotos de "Clei" desnuda e em posições

 

"Eroiticas" tornaram-se relativamente notórios,

 

Pelo tanto que foram distribuídos, a torto e até

 

A direito, causando de repulsa a vis interesses

 

                          Negociais.

 

 

 

E, por tal via, o próprio Garidalo foi-se tornando

 

Famigerado dentro de uns pequeninos círculos.

 

 

 

Os seus clientes — e de Cleide Creusa —

 

Eram aliciados a participarem do "showir"

 

No Gran Círculo.

 

 

 

 

 

III

 

 

 

O "showir" de Garidalo

 

— O engolidor de espadas da cidade de Três Padaria

 

Consistia no seguinte.

 

 

 

Os jovens efebos, ansiosos por uma primeira experiência

 

Com Cleide Creusa, e outros homens por que se encantava

 

O escroque trespadarense, ao tomarem assento na sala,

 

Eram convidados a — empalar a pobre meretriz com uma

 

Espada especial!

 

 

 

Tal artefato tinha um punho de sabre, e, ao invés de lâmina,

 

Incorporava um bastão de plástico em espiral cuja ponta

 

Imitava uma — glande.

 

 

 

Havia pênis infláveis pelas paredes, outros em isopor

 

E purpurinas a decorarem o Gran Círculo

 

Para onde quer que se olhasse: uma paixão do anfitrião,

 

Que levava a cabo ali, ainda, a apologia de drogas

 

                          E, sobretudo: o narcotráfico!

 

 

 

Era Garidalo quem primeiro empalava Cleide Creusa,

 

E o fazia, de modo muito convincente, até sobrar o cabo

 

De sabre e pouco mais que isto de fora do seu corpo.

 

Nenhum dos voluntários jamais conseguiu ir tão fundo.

 

 

 

A coitada, invariavelmente, ao ser trespassada pelo objeto

 

Urrava: UAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIR!

 

 

 

Mas o público, engajado nos protestos contra o foie gras

 

E outras preocupações políticas das mais cultas e nobres,

 

Não tinha tempo de se perguntar... Ora: se aquilo doía nela.

 

 

 

Apenas riam. Riam do cáften cruel, riam de Cleide Creusa;

 

Até aplaudiam e batiam os sapatos sobre o chão de terra,

 

Fazendo com que o casal horrendo se sentisse... Amado.

 

 

 

UAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIR!

 

UAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIR!

 

UAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAIR!

 

 

 

Os berros de Cleide Creusa ressoavam longe; chegavam até

 

Os ouvidos dos poderosos — aqueles a quem Garidalo tanto

 

Admirava e desejava, algum dia, aliciar também e ter como

 

                                Seu público.

 

 

 

No momento que deveria ser o ápice extático do "showir",

 

Consoante a concepção astrológica do asqueroso traficante,

 

Este retirava a dita espada de dentro do corpo da esposa

 

                          E..., sim: a engolia.

 

 

 

Mas essa parte da cena era muito pouco convincente,

 

Em oposição à empalação da jovem ex-prostituta, ou,

 

Aliás, ex-modelo... Era fácil ver que o truque do cáften

 

Limitava-se a meter aquele troço por dentro da camisa,

 

Sempre suarenta e fétida à distância: parvo sem graça.

 

 

 

Fezes e sangue manchavam suas vestes ao final do "showir".

 

 

 

 

 

IV

 

 

 

Nothing personal; only business.

 

Não são as pessoas que agem, senão: o sujeito liberal.

 

Melhor: não são os indivíduos que estão ao leme da ação;

 

O intelecto agente, da teoria do conhecimento clássica,

 

Cede lugar e vez, definitivamente, ao — business:

 

À atitude negocial permanente; e isto o exime da usura,

 

Da mais-valia, do roubo. Dos assassinatos a sangue-frio

 

No cinema tosco de propaganda ideológica estadunidense.

 

É o business quem rouba no sistema burguês, as pessoas

 

Estão entre parênteses, cedendo ao livre fluxo da sua lógica.

 

 

 

Um dos aspectos mais curiosos do liberalismo

 

Está no fato de incorporar um suposto individualismo

 

Sem indivíduos.

 

 

 

Garidalo era um fã apaixonado do poder, já disse.

 

E, no final de sua existência, este, enfim, se lhe mostrou

 

Em plenitude, repito.

 

 

 

No Brasil, o poder que não emanar, legitimamente, do povo,

 

Tão-pouco emanará, de preferência, da burguesia,

 

Como queria Garidalo e outros, senão que da velha

 

Aristocracia senhorial, herdeira da Casa Grande e, mais

 

Além — do Regime da Força*.

 

 

 

De toda forma, poder-se-ia advogar:

 

Não foram os poderosos que mandaram fazê-lo. Não.

 

Não foi nada pessoal: foi o "bisinéis"... Ou, quando menos:

 

O interesse. E Garidalo, há de ter podido... appreciate,

 

Em alguma medida, o princípio envolvido naquilo.

 

 

 

Numa manhã que se desprendia muito lentamente da neblina

 

Espessa a tragar luzes baças, imprecisas e odores mórbidos,

 

                    — Três vultos macabros

 

Projetavam longas, torturadas sombras

 

Defronte do Gran Círculo...

 

 

 

Piroka, Garidalo e Cleide Creusa, nessa ordem,

 

Negrejavam empalados em vergalhões de construção

 

Contra o clarão morno das alvas grises. E moscas verdes,

 

A zunirem, acorriam já à cena terrível!

 

 

 

Ao animal e à moça, o ferro chanfrado atravessava até surgir

 

De suas bocas abertas, dentes à mostra! Olhos de vidro.

 

 

 

Garidalo, entrementes, foi fincado na haste de modo tal

 

Que permanecia vivo ainda, trêmulo ao extremo, espas-

 

Módico, a fitar, esbugalhado, o bruxulear da morte logo

 

À frente. A mão colada à pata do cão amado, até o fim...

 

 

 

E dos seus lábios azulados uma frase a desprender-se,

 

Repetidamente:

 

 

 

"Va-vamos... ne-ne... va-vamos ne... negociair

 

U-uma... u-uma... so... so-so... uma solução...

 

Va-vamos...

 

 

 

                       Ne... go... ci... airr."

 

 

 

 

 

Igor Buys

Rio, 07 de outubro de 2014

 

 

 

 

 

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