ÁTOMOS (DENSIDADE E SUTILEZA III E IV)

DENSIDADE E SUTILEZA – TERCEIRO PASSO

 

1 - Nem todas as oposições através de que se constituem as coisas no mundo (ou coisas-no-mundo, ou do-mundo) são de natureza diádica e caótica.

 

2 - Outro átomo do real é dado por oposições triádicas, como a temporal: passado, futuro, presente; ou a espacial: largura, altura, comprimento.

 

3 - As oposições triádicas, ou cósmicas se constituem em átomos epistêmicos ainda mais densos que aquele que batizamos juntos de Átomo Yin-Yang.

 

4 - O signo, o objeto e o interpretante formam outra dessas triádes que compõem o tecido do real, não mais no plano caótico, senão no do cosmos.

 

5 - O cosmos é o plano do real urdido em cooperação pelos humanos que participam de uma mesma nação: um mesmo indivíduo cultural ou lingüístico.

 

6 - A nação, ou os-homens são um eu-coletivo parelho do superego de Freud, do intelecto possível da Teoria do Conhecimento aristotélico-tomista.

 

7 - O Homem, com esse H maiúsculo da sociologia e da filosofia arcaica é uma mentira; o que há são os-homens: o sujeito (coletivo) da História.

 

8 - A noção de subjetividade individual é um absurdo e uma perversão liberal: toda subjetividade é coletiva e atada ao ato do — reconhecimento.

 

9 - Ora, o reconhecimento, terceira etapa da cognição, depende "in totum" de esquemas lingüístico-culturais onde subsumirmos nossas apercepções.

 

10 - Tais esquemas, afins do que já se chamou os universais, nos habitam, a cada um, na instância do eu-coletivo, a nação, ou melhor — os-homens.

 

11 - De volta aos átomos de pulsação triádica, ou cósmica, note que se não pode pensar presente, senão em oposição simultânea a passado e futuro.

 

12 - É impensável qualquer das dimensões do espaço, quando se não as oponha entre si. O vermelho é reconhecido em oposição ao amarelo e ao azul.

 

13 - As cores secundárias são reconhecidas através de oposições da mesma ordem: laranja, roxo e verde. Já as terciárias formam tríades compostas.

 

14 - Ego, superego e id definem-se por oposição triádica. Eu, tu, ele: idem. As tríades, já salientava Peirce, estão por toda parte no cosmos.

 

15 - Estão por toda parte no mundo ordenado pelos deuses olímpicos, segundo a Mitologia. I.e., no mundo lógico-verbal: reconhecido pela razão.

 

16 - A partir daqui, podemos pensar os átomos epistêmicos diádicos e triádicos como categorias de átomos e à partícula do Eu profundo como única.

 

17 - Tal unicidade do átomo cinestésico do Eu somada ao fato de ser este o sustentáculo de toda apercepção define a sua imensurável densidade.

 

18 - Ao átomo de pulsação triádica, ou cada um desta categoria, podemos chamar, pois, se concordares, — Átomo de Prometeu, já que cria os-homens.

 

19 - Ou é sua menor parte: o tijolo fundamental da subjetividade. A estabilidade do triângulo em arquitetura traduz toda a densidade das tríades.

 

20 - Como estas ordenam o Οίκος: a casa ou mundo: o local habitado pelos-homens, pela nação; i.e., pelo Sujeito, propriamente dito, da História.

​​

 

DENSIDADE E SUTILEZA –  QUARTO PASSO

1 - As oposições diádicas, caóticas são menos densas que as triádicas, cósmicas. O plano das díades é, no mito, o dos Hecatônquiros e Gigantes.

2 - Dos Ciclopes e Titãs de segunda geração. Criaturas que forneciam alegorias fortes e belas de uma ordem da natureza bravia e pré-racional.

3 - Estamos num ambiente de passionalidade pura, portanto. Se desejarmos produzir paixões violentas, obsessivas podemos lançar mão de díades.

4 - De contrariedades, de contradições em profusão. Uma linguagem exacerbadamente diádica, e.g., maniqueísta pode produzir convulsão social.

5 - Pode produzir revolução. E, na revolução, desnuda-se o significado prático da unidade dos opostos, sobretudo, maniqueístas: bem versus mal.

6 - Tudo pela revolução é feito em nome do amor; porém, as guerras revolucionárias se externam como destruição, violência, morte: ódio e mal...

7 - Bem e mal, esse par xifópago, oposto de forma radical, produz, como resultado, uma pulsação violenta ao extremo, que, de súbito: os iguala.

8 - E, de novo, subitânea e sub-repticiamente, os diferencia! repele entre si! São extremos: negação, um do outro! Ou não? São, enfim: o mesmo?

9 - Quente-frio; claro-escuro; bem-mal; amor-ódio: eis que tais Hecatônquiros se movem, pulsam, como corações desenfreados!... No caos material.

10 - O real comporta três planos: (1) o caos pré-material, onde habitam os ilimitados, no mito: divindades siderais e titãs de primeira geração;

11 - epistemologicamente: sentimentos, emoções, intuições; (2) o caos já material: plano de instintos, pulsões, mutatis mutandis: o id de Freud;

12 - E (3) o cosmos. A tais planos correspondem, ainda, percepção, apercepção, reconhecimento. Ora, sentimentos, emoções são apenas percebidos...

13 - Instintos e pulsões fluem, com motor próprio, pré-consciente, em direção a coisas (do-mundo) concretas: apercebidas. Respondem a estímulos.

14 - Por ora, vamos nos concentrar no poder das díades de pulsação brutal, desordenada e desorientadora e sua eventual instrumentalização.

15 - Uma linguagem duramente diática, caótica produzirá, nas relações interpessoais, paixões irrefreáveis, que são amor-ódio, ódio-amor, sem fim.

16 - Tais enleios geram uma magnetização compulsiva por parte da pessoa atingida. Que reagirá de modo destrutivo, torpe, premeditado. Possessivo.

17 - Isso a devora, consome; mas não admite que ninguém interfira. Afastará de ti, por meios os mais desleais, estejas pronto: quaisquer pessoas!

18 - O que esquenta-fria, esfria-esquenta: explode! Racha, se decompõe. Pode te ser útil tal ciência, e.g., para pôr termo a relações alheias.

19 - Para gerar atenções sobre ti de quem, amando-odiando, não conseguirá evitar o que se afigura como um "magnetismo pessoal irrefreável" teu.

20 - Místicos o analisarão, se dominares tal linguagem, por meio do mito do "vampiro astral": tens em ti um desequilíbrio "energético", dirão.

21 - Desequilíbrio esse que sugaria “energias” (espirituais, mágicas) de outros. Não deixa de ser uma visão poética ilustrativa do páthos gerado.

22 - Tal páthos é penoso para seus pacientes e, digo de novo: obsedante. Pode te causar inconvenientes. Usa-o, se desejares, ciente de seu ônus.

23 - Se, por outro lado, não desejares cataclismos e Centimanos nas relações pessoais e sociais, — evita linguagem carregada de díades caóticas.

24 - E, para estar imune à passionalidade, entende o seu mecanismo. E aprende a desfazê-lo. A chave é: ignorar. Ou usa-o como sedação dionisíaca.

 

 

Igor Buys

2016

 

 

Kandinsky; Composição VII

 

 

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