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ONIRONAUTAS

Outro dia, durante a sesta, sonhei contigo.

Eu tinha a cabeça entre as tuas coxas e me puxavas para mais adentro de ti,

puxavas coas solas dos teus pés e as unhas lentas a contrapelarem meus cabelos.

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Acordado, não sabia se era memória ou fantasia

o que emprestava cozedura a tais imagens... (Mente turva).

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— Tique-taque, tique-taque

.

coisas quietas, coisas tais, muito quietas à minha volta;

os objetos como que temerosos da luz da tarde,

ao despertarem de tal sesta, se escondiam espectrais

trás o tramar aracnídeo de uma noite ainda remota...

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Trovoadas.

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Seria uma noite fria. Chuva gelada sobre a areia

que a traga a haustos largos, náufragos. Chuva, raio,

chuva; chuva e vento, vento; farfalhares, luzes ébrias.

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Creio que precise de ti para sofrer.

Estou frio. Já não sei sofrer por nada

exceto por ti. Não há fogueira outra que me purifique.

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Preciso de ti para morrer. Do contrário, sou capaz de resistir

aos séculos como as montanhas secas de almas gélidas

que o sol não penetra e digerem a escuridão e o abismo

em pedra, em silêncio sólido, insuplantável.

.

Preciso de ti para morrer.

.

O mar sempre me traz pulsão de morte.

Morte doce e líquida como os teus cabelos,

calma e cega como o teu regaço.

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O mar à noite é o revés de um Incêndio Descomunal.

Ali se desfazem em cinzas fantasmas azuis, navios de âmbar.

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Preciso de ti para sofrer e morrer.

.

Outro dia, durante a sesta, sonhei contigo.

.

.

Igor Buys

Ilha Grande, 04 de outubro de 2018 / 13 de março de 2023



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