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Friedrich Nietzsche: “O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele.”

Friedrich Nietzsche: “O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele.”

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Essa frase é divulgada, amiúde, por pessoas que não fazem a menor idéia do que Nietzsche está a dizer no texto. Esse homem a que ele se refere é uma -- construção cultural. O trabalho básico de Nietzsche é a crítica da cultura. I.e., da cultura ocidental vigente, fortemente marcada pelo legado socrático-cristão (ou platocristão).

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Ele não está a dizer, como muitos desejariam, sobretudo, quiçá, os que se dizem “protetores” de animais, e outros banais detratores da humanidade em si, que o homem é um animal malvado, o qual está a destruir o planeta e negar ração aos cãezinhos abandonados que se ajuntam nas calçadas, ao lado de meninos abandonados e de adultos abandonados pelo Estado e pela sociedade, estes últimos, no entanto, invisíveis para o grupo em questão de pateticamente fúteis ideólogos burgueses e pequeno-burgueses.

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Quanto mais um indivíduo humano incorpora o homem, essa construção cultural e ideológica, mais esse indivíduo se distancia do animal humano e do humano das sociedades pré-cristãs, pagãs, como a dos vikings, e de outros povos guerreiros, os quais Nietzsche tanto admirava e que viviam para o presente, nutriam amor pelo seu destino, pelos fatos de suas vidas, ainda quando duramente impregnadas do elemento trágico de toda a existência. O viking “Jarl Borg”, da série de TV “Vikings”, que se entrega ao suplício chamado “Águia Vermelha” com total dignidade e coragem, e, para além disso, com verdadeiro -- amor por esse fato terrível, já que, simplesmente, é um fato inelutável de sua vida, de seu destino e, no último momento antes de morrer, divisa a divindade Odin sob a forma de uma águia no céu -- e sorri; ora, este é o herói nietzschiano máximo!

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Paradoxalmente, os indivíduos que não incorporam o homem como construção cultural socrático-cristã são também muito afins do herói que Rousseau delineia, em termos gerais, como tipo: o humano não contaminado pela dita sociedade depravada, aquele que vive em estado aboriginário, i.e., e em estado de natureza. E Rousseau é um pensador a que Nietzsche ataca ferozmente, mencionando o todo de seu pensamento como “a tarântula rousseauniana”.

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Os nômades de Deleuze são outro exemplo basilar de indivíduos humanos alheios à influência do homem como construção cultural socrático-cristã, e são apresentados, nitidamente, querendo-se ou não, como herança pós-nietzschiana no pensamento.

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O Homem, como esse H maiúsculo, como era grafado pelos sociólogos até muito pouco tempo atrás, tem deveras a sua origem histórica na Antiguidade Clássica (socrática) e no cristianismo medieval e moderno, mas, hodiernamente, deve ser pensado, sobretudo, como construção ideológica liberal-burguesa moderna, de sorte que, inclusive, a pós-modernidade plena há de ser, em suma, a superação de O Homem para a ascensão de algo afim do que Nietzsche pensou como o Super-Homem -- um movimento cultural e não uma pessoa física --, e que nós podemos pensar, ainda, como o -- Transumano.

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Igor Buys, poeta e ensaísta

01 de abril de 2021

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