PARA GREGÓRIO DE MATTOS GUERRA, PADRE VIEIRA E IRMÃO

Inda é assim: é o juiz quem mais rapa,
mais se cobre e lambuza de carepa.
Ao patriota e à própria Lei — decepa!
Depois, pousa de herói e agita a capa.

Inda nos quer varrer do nosso mapa
a canalha malsã sobre que trepa,
em esporas, o gringo e a qual increpa,
difama e regurgita a paga e a papa.

Pela nossa derrota, erguem tulipas!
Torcem contra o País! E, à garlopa,
a notícia deturpam! Inda chupa

na mesma teta o vendilhão que estripa
o povo quando pode e tudo topa
em apa, em epa, em ipa, em opa, em upa.
 
 
Igor Buys
(heterônimo Gregório Ivo)
04 de outubro de 2014

 

 

ENTENDA:

 

Soneto
que Bernardo Vieira mandou para seu irmão, Padre Antônio Vieira
:


Se queres ver do mundo um novo mapa,
oitenta anos atende desta cepa
por onde ramos a cobiça trepa,
e emaranhada faz do tronco lapa.

Morde com dentes por não ter mais papa;
com língua fere, com as mãos decepa;
soldado e povo livra da carepa,
que na tarde e manhã raivoso rapa;

olhos de água, as faces de tulipa;
cada pé de joanete uma garlopa;
com um só corpo de chalupa.

O bofe muito, e muito pouco a tripa,
é a minha musa; porque nela topa
em apa, epa, ipa, opa, upa.


Resposta
do Padre Antônio Vieira, pelos mesmos consoantes
:


Vê, Bernardo, da eternidade o mapa
deixa do velho Adão a geral cepa,
pelo lenho da cruz ao Empírio trepa,
começando em Belém da pobre lapa.

Mais que rei pode ser, e mais que papa,
quem de seu coração vícios decepa;
que a grenha de Sansão toda é carepa,
e a guadanha da morte tudo rapa.

A dor da vida se é na cor tulipa,
de seus anos também se faz garlopa,
que os corta, como o mar corta a chalupa.

Não há mister que o ferro corte a tripa,
se na parte vital o fado topa,
em apa, epa, ipa, opa, upa.


Soneto 
Por consoantes que me deram forçados

Gregório de Mattos e Guerra, o "Boca do Inferno", entra na conversa:


Neste mundo é mais rico o que mais rapa;
quem mais limpo se faz, tem mais carepa;
com sua língua, ao nobre o vil decepa;
o velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa;
quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
quem menos falar pode, mais increpa;
quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por tulipa;
bengala hoje na mão, ontem garlopa;
mais isento se mostra o que mais chupa;

para a tropa do trapo vão a tripa,
e mais não digo; porque a Musa topa
em apa, em epa, em ipa, em opa, em upa.

 

 

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