GUEIXA [2a. Versão]

A tua casa tem um perfume

que se me entranhou na pele.

Onde quer que esteja sei sentir

esse perfume. O teu perfume.

Notas orientais, exóticas, européias,

amadeiradas, frutais, muito doces.

Não sei se és fada, gueixa

ou um pouco de ambas as mágicas.

Só sei que me fascina e prende a ti

a tua incrível beleza, o leite na tua pele,

nas tuas pernas, o mel dos teus cabelos.

Os teus olhos de gazela redescubro

na forma de cada folha sorridente sob o outono.

Preciso, então, tocar os galhos verdes e me pego

a sorrir também. Por debaixo da máscara.

A máscara.

Dias incomuns estes.

Sobre a máscara descartável, reaproveitada

e purificada com álcool, trago a balaclava.

O espelho me lança um sorriso escaveirado.

Não obstante, dizia, guardo entranhado

na pele, nos pulmões da alma

o teu perfume, o cheiro da tua casa,

tuas coisas, maquiagens, teus sapatos de cristal.

Na outra noite, eu te tive de bruços,

murmurando no teu ouvido uma língua

airosa, vocálica, de seres ígneos por certo,

ou senão simplesmente latinos.

Mas me entendias; e respondias

numa língua outra, universal e fêmea

-- por vezes felina. O teu pescoço,

a tua face, os teus cabelos na minha boca

e os teus perfumes, ai, os teus perfumes.

Nada me pode guardar da tua presença

enquanto forma, que se torna visível,

mas não para os olhos, febril e macia

para além do tato. Perfume, perfume;

teu perfume este, sim, é quase olfato.

Memória de mundos passados

ou pressentir de porvires melhores?

Sabe-se lá.

Mas é de mister amar

e amar urgentemente.

Igor Buys

Ilha Grande, 22 de abril / 14 de julho de 2020

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