Sobre a poesia PUTA PERFILADA NA ESQUINA ESCURA

Eu gosto muito de ter escrito esse texto. A forma, obviamente, remete a um trono ou, quiçá, também a um sanitário. E a imagem que, há vários anos, publico na Rede junto com o texto sugere exatamente isso, além de conter uma cruz, i.e., um apelo ao sagrado que é capturado de mistura ao universo de um personagem sofrido e bem rodriguiano. Também se pode entrever no argumento alguma influência do Poeta do Absurdo, que, sem dúvida, é um dos meus poetas.

Ela é uma Geni.

Assim como a anti-heroína de Chico Buarque, ela vai com todo mundo. A "moça viúva", i.e., uma mulher que se presume ainda jovem, ou não idosa, e já condenada à viuvez; o "tenente aleijado", que faz pensar, talvez, num ex-combatente; o "padre sem bata"; o "menino qu'é virgem". A Geni do Chico "dá pra qualquer um":

"De tudo que é nego torto

Do mangue e do cais do porto

Ela já foi namorada

O seu corpo é dos errantes

Dos cegos, dos retirantes

É de quem não tem mais nada

Dá-se assim desde menina

Na garagem, na cantina

Atrás do tanque, no mato

É a rainha dos detentos

Das loucas, dos lazarentos

Dos moleques do internato

E também vai amiúde

Co'os velhinhos sem saúde

E as viúvas sem porvir

Ela é um poço de bondade"

(Geni e o Zepelim, excerto)

Esse último verso, "Ela é um poço de bondade", torna o paralelo entre os dois textos ainda mais concreto. Não houve uma intenção deliberada de aludir ao Chico, mas, se eu me desse ao mister de analisar o texto PUTA PERFILADA NA ESQUINA ESCURA não sendo o seu autor não perderia o mote de para ladeá-lo à poética buarqueana.

A influência do Concretismo está sempre presente nas minhas construções e essa, que me veio como um presente no dia do meu aniversário, é, toda ela, um anagrama.

O trecho:

P u ta per fil ad a nas qui na es c ura

Mostra, anagramaticamente, a meretriz de pé contra uma parede, uma esquina escura, quiçá, perfilada, negrejante e mal visível contra as luzes da noite, de sorte que as separações estilísticas de sílabas, tornando a leitura oscilante e incerta, retardando a apreensão da imagem têm uma função -- icônica: constituem também, semiologicamente, essas separações de sílabas um ícone da forma como a visão capta a figura esguia e esquiva da meretriz.

E ela tem uma imagem bruxuleante por outras razões, além dos claros e escuros do ambiente descrito: por viver no submundo, no plano daquilo que é incógnito e secreto, daquilo que se vê e se não vê, ao mesmo tempo; por encarnar, segundo o texto, um absurdo amálgama do que é santo com o que é da sarjeta, algo, novamente, difícil de pôr em foco.

Igor Buys

Ilha Grande, 12 de julho de 2020

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