Eu, definitivamente, não sou um cara sutil e cheio de indiretas

Eu, definitivamente, não sou um cara sutil e cheio de indiretas na condução dos meus assuntos pessoais. Das indiretas que me enviam, entendo, provavelmente, muito pouca coisa. Até porque não paro para pensar muito naquilo que parece ser uma indireta, deve ser, mas. Com certeza, não merece a minha atenção.

Sou tão incapaz de linguagens indiretas e, digamos, sugestivas que, durante um bom tempo, quando quis me comunicar "em off" na Rede, criei páginas ocultas no meu sítio (ou site), protegidas por senha, e mandei os linques e chaves para as destinatárias. E, nesses ambientes, nessas páginas secretas, nunca soube ser nada sutil e nada indireto.

O mundo já é demasiado sutil. A matéria é quase nada, segundo o olhar da ciência indutivo-experimental, vai se desfazendo em partículas e vazios; o tempo é uma colcha de retalhos, como digo sempre, não se encontra nunca um tempo presente e concreto, essa vida-hoje que Nietzsche desejava e em que procurava se ancorar. De modo que eu, de mim, não busco a sutileza: fujo dela! Busco o oposto: a densidade. Onde está o que é denso? A qüididade, a "coisidade" de tudo?

É isso o que eu procuro: o átomo, ou os átomos da existência, suas partes mais densas e impassíveis de fissura.

Quem me interpretar demais certamente me perderá. Eu não digo sutilmente, indiretamente, fragmentadamente, não penso e não sinto dessa forma.

Sou solidamente, brutalmente, por certo, na experiência de algumas pessoas; amorosamente, não conquisto: pego mesmo. E pego literalmente: seguro as pontinhas dos dedos, por exemplo, depois, se houver permissão, seguro a mão, toco o rosto, os cabelos, e vou ganhando os meus espaços.

Meu desejo, meus sentimentos estão nos meus versos; e os meus versos estão aqui.

Igor Buys

Ilha Grande, 28 de maio de 2020

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