CARTA-BILHETE

Olá, meu amor.

Saudade de ti, mesmo te vendo todos os dias.

E te ouvindo, e percebendo para além dos sentidos primários.

 

Algumas vezes, quis escrever-te uns versos.

Mas me parecem sempre modestas as idéias que me acorrem.

Pareceram pouco para ti. Pouco caras,

nem tão preciosas as rimas e, de súbito,

estou numa charrette sonhando com Ferraris. 

 

Pôr-me-ei, então, por inteiro nesta carta-bilhete.

 

São dias estranhos estes, já te disse.

E a mim me parece que podem ser o começo de algo,

de um novo tempo, não apenas uma tribulação transitória.

Que isso é guerra, ocioso dizer. Não do Oriente

contra o Ocidente, senão, quiçá, de todos em concerto

contra a pobreza e a inatividade laborativa,

para não dizer contra os pobres e aposentados.

Estes devem fenecer, entendem decerto os pais disso tudo.

 

Um mundo sem pobres, sem idosos, deficientes

e doentes incuráveis. Um mundo sem assistência,

eliminados os que precisam ser assistidos.

Um mundos dos fortes, dos supervenientes.

Ainda que os fortes que vislumbram não sejam

deveras os fortes, os melhor dotados na genética.

Tão-só os acidentalmente mais favorecidos.

 

E o que se terá, destarte, é mais involução.

 

O que se terá é um mundo de mascarados.

De amores mascarados, já não bastassem estar

encamisados desde há décadas.

 

Eu de mim tenho preferido amiúde

ao amor de camisinha, o amor de Kamikaze. 

 

E agora que roubaram do amor, além da 

plena sensibilidade e intempestividade,

finalmente o beijo e o sorriso?

 

Biological warfare

 

Bem, eu te amaria metido numa máscara de ferro, 

num escafandro. Colheria o desabrochar dos teus 

lábios por detrás de um visor. Ou de um monitor.

 

Chi può fermare il fiume che corre verso il mare.

 

Ainda haverá um vão de porta onde fincares o teu pé

e eu te abraçarei com a mesma febre, o amor

arfando forte por entre as malhas das máscaras,

animal amordaçado e meigo, imenso, maior que o tempo! 

e ao fim e ao cabo ainda corroborando -- o amor --

o seu poder de Asa, de Vôo e transcendência.

 

 

Igor Buys

Ilha Grande, 28 de abril de 2020

 

 

 

 

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