GUEIXA (OU O AMOR NOS TEMPO DO COVID)

A tua casa tem um perfume

que se me entranhou na pele.

Onde quer que esteja, sei sentir

esse perfume. O teu perfume.

Notas orientais, exóticas, européias,

amadeiradas, frutais, e muito doces.

 

Não sei se és fada, ou gueixa.

Ou um pouco de ambas as idéias.

Só sei que me fascina e prende

a tua incrível beleza, o leite na tua pele,

nas tuas pernas, o mel dos teus cabelos.

 

Os teus olhos de gazela redescubro

na forma de cada folha sorridente sob o outono.

Preciso, então, tocar os galhos verdes e me pego

a sorrir também. Por debaixo da máscara.

 

A máscara. Dias incomuns estes.

 

Sobre a máscara descartável reaproveitada

e purificada com álcool trago a balaclava.

 

E entranhado na pele, nos pulmões

o teu perfume, o cheiro da tua casa,

das tuas coisas, maquiagens, dos teus sapatos.

 

Na outra noite, eu te tive de bruços,

murmurando no teu ouvido uma língua

airosa, vocálica, de seres ígneos por certo.

Mas me entendias; e respondias numa língua

outra, universal e fêmea -- por vezes felina,

ou simplesmente fêmea. O teu pescoço,

a tua face, os teus cabelos na minha boca

e os teus perfumes, ai, os teus perfumes.

 

Nada me pode guardar da tua presença

enquanto forma, que se torna visível,

mas não para os olhos, febril e macia

para além do tato. Perfume, perfume;

teu perfume este, sim, é quase olfato.

Memória de mundos passados

ou pressentir de porvires melhores?

 

Sabe-se lá.

 

Mas é de mister amar

e amar urgentemente.

 

 

Igor Buys

Ilha Grande, 22 de abril de 2020

 

 

 

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