POT-POURRI: ÁGUAS DE MARÇO

O teu silêncio cala algo dentro de mim.

No meu olhar, no meu modo de perceber o mar,

a brisa, a areia gelada sobre a orla, a pegada desa-

pegada de sua forma… A passada,

passada,

passada

O teu silêncio cala algo no meu olhar.

O mar, sua respiração, sua permanente mutação,

suas nuanças de verde, de âmbar, castanho e dourado.

Essas águas cujas mãos loucas te tocam inteira,

percorrem as tuas formas, recriam as tuas curvas e

viajam, viajam até aqui só para me as trazer nuas,

e me as fazer beber e afogar, incendiando a minha sede.

Eu ainda vou rodar esse teu país inteiro.

Quero conhecer as pernas, as solas dos pés

das que cresceram pisando a mesma terra

e são filhas do mesmo sol que te dá sangue.

Quero beber as suas bocas, os seus seios,

deitar com elas sobre o mesmo mar incessante

que se salga da tua pele desde niña e te conhece,

te desnuda, penetra as tuas roupas, teus Sagrados.

Morder o fruto, provar o tempero, a pimenta,

me embeber dos cheiros, dos sons, instrumentos;

acariciar o verde das folhas vivas, o verde telúrico

que emerge do lençol d’água para o toque da luz

e explode e plange no teu olhar de mel e esmeralda!

Ou te encontro a ti mesma, ou te roubo em todas

e em tudo que me toque a alma nessa tua terra!

Que vontade de te morder na boca,

de te dar na cara,

te jogar no chão.

Que compulsão,

que ânsia: a alma de meus braços se projeta viva,

vítrea, mal visível nos ares, e me escapa de novo,

e de novo, me puxa, e quase arrasta o peso, a carne,

o osso, a culpa,

o dente.

Beijar, beber teu rostinho de um modo

selvagem...; e chorar no teu pescoço,

soluçar como um menino.

Enlaçar os teus dedos,

sentir tua outra mão na minha nuca,

tua perna sobre o meu bíceps;

e falar ao teu ouvido coisas

desconexas, sobre viver para te amar,

sobre morrer nos teus olhos,

afogado em luz salsa, afogado,

ai, sublimado,

sublimado em silêncio.

Igor Buys

Ilha Grande, 02 de março de 2020

BRAILE; TELÚRICA; DAR NA TUA CARA

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