UMA BREVE "DEFESA DE HELENA": DISCUSSÃO SOBRE A BELEZA FEITA NUM FÓRUM QUE TEM CONCURSOS DE BELEZA COMO TEMA

O fórum é este, hospedado no Facebook,

e as fotos são da Miss Universo 2016, a francesa Iris Mittenaere

 

 

1 - Como é que os aculturados chamam isso? Lifestyle?

 

 

2 - Isso eu chamo de beleza mesmo. Incontestável, inexorável, implacável, quiçá, cruel... beleza.

 

 

3 - A beleza é altamente discriminatória. Uma maldade de Deus ou da natureza... Não há de ser fácil conviver com ela, confrontá-la permanentemente sem a possuir em si mesmo ou, de uma forma muito íntima, consigo, ao seu lado, junto de si, -- para si.

 

 

4 - Uma perguntinha boa: a beleza é apolínea ou dionisíaca? Adianto: na Iris, talvez seja tanto apolínea como dionisíaca...

 

 

5 - Isso eu chamo de moda.

 

 

6 - Isso eu chamo de arte, moda, beleza, pouquíssima maquiagem e muitíssima crueldade.

 

 

7 - E isso eu chamo de -- charme, uma forma de beleza que só os franceses compreendem; tanto assim que todos os demais povos adotam a palavra francesa para tentar, em alguma medida, compreender isso. Nenhum outro povo foi capaz de conceber uma palavra em sua própria língua para traduzir o que significa -- charme.

 

 

8 - Se há uma coisa concreta como uma parede em relação à Iris, e à beleza da Iris é que ela é sempre exatamente a mesma, em qualquer situação, em qualquer ocasião, de qualquer ângulo, na praia, assistindo televisão com o namorado, nas noites de gala ou no palco do MU. Isso foi algo, inclusive, que eu comentei aqui e dizer o oposto é uma contradita direta a mim, mas, sobretudo, é uma manifestação de dor, profunda dor e sofrimento em relação à Iris, ao que ela é apoditicamente, factualmente. Então, acaba sendo também uma ilustração fortíssima do problema da dor em relação à beleza por conta desse elemento discriminatório essencial a ela, e que é cruel, é implacável, e, em termos nietzschianos, -- trágico.


Para Darwin, há uma seleção sexual, que é componente da seleção natural e serve para depurar os caracteres a serem transmitidos através da procriação, i.e., para -- excluir do jogo da reprodução e da sexualidade os caracteres dos indivíduos menos aptos a sobreviver, menos fortes e, portanto, menos belos. O que o corpo detecta como beleza física, ainda dentro do pensamento e da teoria de Darwin, é aquilo que deve ser transmitido na reprodução por ser útil à -- evolução das espécies. Consequentemente, o que não é belo é o que não deve ser transmitido por ser -- involutivo, inferior.
Não é possível pensar a beleza, senão em oposição à feiúra. E isso, sem sombra de dúvida, é terrível. O comum, ou o comum a todos os indivíduos não é belo nem feio. A beleza depende da feiúra, e esta daquela para ser pensada e existir, assim como o claro do escuro, o frio do quente. São opostos dialéticos. Então, uma mulher como a Iris, mormente ela, que tem um tipo de beleza mesclado sempre à sensualidade e que agrada os homens, i.e., a torna sexualmente selecionável em termos darwinianos é produtora de muita dor, de muito sofrimento, queira ela ou não. Porque tudo nela é sobre -- exclusão da feiúra, exclusão dos mais fracos, dos menos aptos à simplesmente existir, ou continuar existindo em descendentes por meio dos seus caracteres. Uma beleza angelical (assexuada) machuca menos; uma beleza andrógina, idem. Mas uma Iris feita Miss Universo, bela já pela manhã, a escovar os dentes, desmerecendo toda a produção, a cosmética, os profissionais que vivem da beleza, essa mulher representa crueldade infinita da natureza, de Deus, do destino, como cada um prefira, contra os feios, os comuns, os "legais", os que tentam simplesmente existir e sobreviver a custa de uma "beleza interior", velada, fantasiosa ou não, mas que o corpo certamente não detecta, o instinto não apreende e precisaria ser percebida pela moral... Ora, exatamente a moral, que, na Genealogia da Moral, Nietzsche chama -- a moral dos fracos...

 

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