NÃO ME ABANDONE ELA

Texto premiado em Genebra, Suíça

 

 

Oceano arquejando, indo e vindo no acúbito,
Areia a ronronar, arranhando em decúbito;
Beijo boca salgada, dois seios de orvalho,
Dedos meus numa púbis de água e cascalho.

A terra e o mar de fuga, o eterno e o súbito,
Dois titãs se procuram, imenso concúbito,
Como nós, nos amando, em meio ao crisalho,
Vai-e-vem solitário, solidário malho.

Amo a noite e a mulher, ela a mim e a Urano,
Afogada entre estrelas, grávida de arcano.
Dá-me ela o olhar onde a lua se espelha:

— Não me abandone ela! peço a tal centelha.
E a espuma e a marola transfogem de mim
Quando a invadem odisséias, naufrágio e anequim...

 


Igor Buys;
in "Versos Íncubos", 2014

 

 

Ravishing Redhead Roundup

 

 

Sobre o texto. Esse soneto, como é freqüente na minha poética, -- esconde um nome de mulher.

O expediente para escondê-lo não é inédito, mas é pouco comum: o nome ecoa diáfano, fugitvo nos versos: "Dá-me ela o olhar onde a lua se espelha" e "— Não me abandone ela! peço a tal centelha." Este último, de onde se extrai o título do texto.

 

 

 

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