DAIME

O sofrimento vicia mais que o álcool.
Não obstante sejam bons camaradas.

 

Adrenalina, noradrenalina,

ácido clorídrico, pepsina, cortisol,

corticotrofina, estrogênio, tiroxina

e sabe lá o que mais.

 

E ao mesmo passo em que uma droga,

é quase uma religião o sofrimento,
como o tal culto do Santo Daime.

 

Eu abdico de qualquer religião.
Mas ninguém toque, ninguém mexa,
ninguém note muito no meu sofrimento.

 

Sou ciumento. Doentia, ensandecidamente
ciumento.

 

Ninguém olhe. Ninguém fale.
Ninguém dê bom dia
ao meu sofrimento.

 

Cuidado: o sofrimento é alucinógeno!


Toma não raro a forma da mulher amada
e sabe caminhar ao nosso lado.

 

Bem, no Rio, não se apresentam as acompanhantes;
não se olha direto para as dos outros, não se as repara.
Estão um passo atrás quando os caras se falam
como que protegidas por seus corpos,
e os peitos se estufam, os topetes alteiam.
Mas, se algum alienígena lhes estende a mão, elas
olham para o lado: está visto, vem de outro estado
da matéria.

 


Igor Buys
Ilha Grande, 28 de outubro de 2019

 

 

Bárbara Chons Boller

 

 

 

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