OBSOLESCÊNCIA DA MORTE

A morte é de uma mesquinhez absolutamente grosseira e inútil. Pudera mentir-se tanto para mitigar a dor da sua incoerência patética,                                [da sua avassaladora inoportunidade. Anelo pelo dia em que o humano, finalmente, abdicará de morrer. E, segundo as ciências, essa bem-aventurança está bem próxima! Transplantes de órgãos, e de órgãos clonados crescidos em estufas; engenharia e reengenharia genéticas; medicina nanorrobótica; sangue artificial. Ah, que muito em breve, poder-se-á viver por um milênio! E: sempre jovens!                     A morte está à beira da obsolescência. A única tristeza que me fica em ver crescer a geração bendita do homo immortalis é não poder eu mesmo acompanhá-la... É me saber finito e rumando para o apodrecimento e o verme, o esquecimento e o granito negro mental e desmental, antimaterial. O sempiterno emparedado, infando. Ao menos, me fiquem as letras que, se a letra mata, também eterniza; se cega, também guarda luz e eco. E encerra inteligência artificial!... Quiçá a letra é o primeiro nanorrobô contra a morte. Igor Buys 19 de setembro de 2010

Portinari; pintura da série "Retirantes"

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