MANTEIGA

Ai, desejo antigo de ti, de sorver o teu cheiro, o teu gosto de mistura ao gosto do bolo de fubá, do pão caseiro que mal saiu do forno.

Açúcar cristal. Geléia de sangue... Coisas sobre que só nós sabemos, mas de tão vívidas basta dizê-las

e são sinestesicamente tangíveis.

Eis o que em ti mais me fascina: o fato de que estejas assim, tão viva, tão mais viva que os demais, que eu mesmo, que toda a tua pequena cidade atávica. Ai, vontade da manteiga passada na tua língua de café com leite; teus lábios de vidro moído e doce.

Ai, necessidade de resfolegar por entre os teus cabelos, desgrenhá-los, mordê-los; morder teu pescoço tua carne tua veia.

Engolir teu gemido, tragar teu grito oco.

E mastigar e comer as pétalas brancas do perfume orvalhado que tua alma expira e espalha;

as essências que misturas, notas

de fundo, notas de sem-coração;

cristais de bruxa cortados de íris,

dó ré si-si; notas florais carnais

orientais animais góticas: pagãs.

Ai, saudade antiga de ti como um não-abraço arrancado mil vezes,

dado e roubado desde vidas mortas,

(indevidas dívidas de vidas...) mortas,

pendentes. Nem vou mais falar sobre manteiga. Sobre manteiga a derr-

eter-se, reter-se

deter-se

de ter-se desfeit'em

éter... (tua quinta-essência?) Derreter-se, derreter-nos.

Deter-nos

de ter-nos,

etéreos,

eternos

ternos

ter

nus

Manteiga

Sempre acabo calando no meu verso o que diria tudo. (Soa como incesto,

ou quase; senão estupro, mútuo). Sempre

me vejo optar pela palavra muda,

vestida -- às pressas! às avessas! --

mas vestida, revestida... De ausência.

Estilhaçadas reticências.

É como o sol: nua demais, dis-

sol-vida demais (até cega) (vida demais)

-- dilua-se, então!

até a anual-

ação,

Olho Cego

da noite

obnubilada: lua

(de vida, indevida)

De sol, vida...

Dilua.

Era nua demais essa paixão. Igor Buys 25 de maio de 2014

Cínthia Moura

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