A DAMA DO LOTAÇÃO

Não me darei a ti como troféu

para carregares acima da cabeça, em volta olímpica

pelo teu paraíso e dos teus ancestrais,

corsários a quem tanto deves, está visto.

Dar-te-me-ei como cruz, qual madeiro

de chumbo e de farpas que te faça baixares os ol-

hos para passar ao lado do teu inimigo de morte

ou do teu amigo de infância.

 

Não me darei a ti como troféu.

Os troféus que são meus os ganhei com dor física, suor

-- suor que nunca viste para chamar de manteiguinha

e somar a outras manteigas e vir lamber no meu corpo.

Dar-te-me-ei, sim, se dizes que me queres,

mas não como princesa coroada para te tornar em rei

sem teres vencido uma guerra. Dar-te-me-ei como aquela,

aquela que todos seguram, e abraçam, e beijam, e cheiram,

deixando as mãos bobas descerem pelas minhas costas e curvas.

Eu não sou o centro das atenções numa festa, eu -- sou a festa

dos meninos virgens, dos idosos trêmulos e dos homens fogosos.

Eu sou a festa perante a qual todos riem, todos rirão, menos tu;

tu hás de chorar, hás de envelhecer cinco anos em um -- ou dez!

eu te quero cardíaco, eu te quero mendigo, digno de pena,

de juba cortada: leão velho cujo rabo quererão pisar e puxar.

Não haverá quem te chame -- o cara, senão: o coroa! Eis o jogo!

Dama? Tua dama? Sim: serei a Dama: a Dama do Lotação!

Criei um passado inteiro só para ti onde fui a piranha,

de pequena a piranha que todos tiveram por detrás das moitas,

por cima das lajes; cada peão viril e cheirando a boi e bosta,

cada caminhoneiro de suor grosso e boca de cachaça,

todos me tiveram até tirarem sangue e me deram na cara.

Não serei teu orgulho, mas tua vergonha; não teu sonho,

senão o pesadelo que a noite inda não te trouxe, -- sono de ferro!

 

Essa tua calma, esse teu -- espera..., ai, como odeio!

como odeio te amar assim: te esperando, qual Penélope,

castamente masturbativa, lendo as tuas pragas dos teus

poemas e cartas, teus feitiços, sumiços e palavrões noite adentro,

mundo afora, onde quer que esteja, nos mais solenes, sagrados

momentos de trabalho, de conquista ou derrota; como odeio!

Deus, como odeio, que me saibas, que me sintas há mais de ano

sem sexo, me deixando tocar pelas amigas, trocando com elas

meias carícias que adorarias contemplar, qual uma menina.

Eu que nunca nem me dei a uma mulher plenamente,

eu que sou exatamente a moça de família, recatada, contida

que tanto desejas e não terás -- não terás! não de mim.

 

Dar-te-ei a piranha de estrada, a chupadora de personal trainers,

a louca depravada, enxovalhada e terás de vencer teus preconceitos:

vais mergulhar, machista, numa piscina de muco para me resgatar e ter.

E, se não me creres, não deres fé a essa puta, essa Lucrécia,

que urdi com tanto amor e ódio, a qual escrevi sobre o verso da pele

arrancada e com a pena feita de um osso da mão como os budistas

dos piores dias; se não te convenceres, adentro mesmo um lotação!

ou senão um trem de passageiros, ou oficina de trens! e abro as coxas

e desafio os homens, as mulheres e os coxos a te provarem

que sou piranha, tua piranha, tua! e te traio, ou traio os teus poemas,

os teus pactos secretos de sangue na madrugada... E sou tua.

Tão tua. Tão nua. Verdadeiramente nua. Eu sou lua... Eu sou tua.

Eu sou tua. Tão tua que tudo que me suja te suja, imunda. Serei tua.

Tua vergonha, tua cruz, a miséria do teu nome, a segunda morte

do teu avô, da tua nobreza vetusta e quixotesca. Eu sou tua negra,

tua escrava? Não! Não choro por ti, não te trago na carne qual esp-

inho, ou filho..., ou fruto de qualquer sorte..., crescendo,

se movendo... Dentro de mim.

 

Tua dama? Sim. Eu sou a tua Dama do Lotação.

 

 

Igor Buys

Ilha Grande, 24 de fevereiro de 2019

 

 

Vestido Marchesa Notte; imagem do sítio da Farfetch Brasil como aparece lá, sem créditos à modelo

 

 

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