O PÉ DA NAMORADA (A PARTIR DE ENTREVISTA EM VÍDEO DE VIVIANE MOSÉ)

1 - Vamos partir da noção de tempo, porque Nietzsche tem uma idéia muito especial a respeito do tempo; não se trata de um conceito, e ele não o desenvolve como tal, mas apenas de uma idéia que é titulada: o Eterno Retorno do Mesmo.

2 - Ele não fundamenta essa idéia, apenas lança a questão: E se nós soubéssemos que estaríamos neste mesmo local, neste mesmo “tópos” -- infinitas vezes; como te sentirias a respeito?

Seu interesse na questão é existencial. Não pretende discutir o que o tempo é, o que as coisas são.

3 - Saindo por um instante de Nietzsche para retornarmos melhor a ele e ao vídeo, podemos postular que -- o tempo confina com a consciência.

Como a assim? Isso quer dizer que quando acaba ou morre a consciência, o tempo também acaba? É claro que essa pergunta é ingênua e viciada.

4 - Viciada pela noção de que o tempo é absoluto ou está nas coisas e pode, a partir de lá (do absoluto ou do seio das coisas no mundo) contemplar a morte, o termo, a falência -- no próprio tempo -- da consciência.

A idéia newtoniana de “tempo absoluto” sempre foi bizarra e singular.

5 - Sempre se soube, desde a Antigüidade que o tempo não tem como ser absoluto. Mas, hoje, valendo-nos da linguagem da ciência indutivo-experimental, tornada inquestionável, sagrada, como já fora a religiosa, podemos catastrofar a noção ingênua de tempo com muita facilidade.

6 - Já escrevi e vale refrisar o seguinte. As estrelas do céu como o vemos estão em tempos diferentes, diz a ciência indutivo-experimental e ninguém duvida. Alguns dos astros do firmamento, inclusive, já se desfizeram há enormidades de tempo e ainda os vemos brilhar, nostalgicamente.

7 - Isso porque a luz viaja no espaço e nos traz as imagens das estrelas com anos-luz de atraso.

Pois bem, neste gabinete, onde me encontro, na Ilha Grande, as imagens visuais das coisas também viajam no espaço até me afetarem, pois são trazidas pela luz que as atinge e se dispersa.

8 - Destarte, o cachimbo eletrônico no suporte sobre a mesa a meio metro é seis vezes mais moderno que a porta do aposento, distante três metros de mim. O clarão lilás do raio lá fora precede o trovão. As imagens, visuais, auditivas, táteis, etc., não compartem de per si um -- agora.

9 - Escrevi também, numa frase parrésica, o seguinte: “A luz que toca o sorriso da namorada viaja no espaço e no tempo até que me afete; e, quando me chega, é mais moderna que a imagem de seu pé.”.

10 - E, completei: “Ora, se algumas estrelas estão mortas porque se já modificaram quando a luz que emitiram me atinge, o amor, o sorriso e a flor também estão.”. Tudo isso viajou no espaço e no corpo, por nervos e sinapses, até se formar como imagem de um -- agora costurado e ficto.

11 - Nietzsche, entrementes, valorizava imensamente esse agora, essa ficção. E, se estaremos aí, nesse espaço-tempo, essa colcha de retalhos dos sentidos, infinitas vezes ou, como se tornou clichê dizer hodiernamente, uma única vez, a conseqüência existencial disso é bastante similar.

12 - É de mister injetar no agora, território que a consciência nos fornece para viver e, sobretudo, agir, -- o ilimitado de nós. Ou seja: as nossas imagens internas: o instinto, a pulsão, o sentimento, a emoção, a intuição. Do contrário, o agora, eterno ou fugaz, se perderá no vazio.

13 - As imagens internas ou fantasmas internos habitam a região do eu que é chamada -- individualidade.

Aí tudo é indivíduo ou ilimitado: nada pode ser reduzido a partes, nada tem bordas; não se pode dividir sentimentos, emoções, impulsos e nada disso é da ordem do espaço e do tempo.

14 - Mas os indivisíveis que nos habitam, i.e., o nosso ilimitado precisa caber no ato e este, por seu turno, molda a vida no tempo. Anestesiar a dor, reprimir o desejo, matar o impulso é -- morrer! Morrer não tem nenhum outro significado (pois se a consciência confina com o tempo…).

15 - Comprar sapatos, bolsas, armas, ternos para não sentir a dor que o agora requer do eu; drogar-se, comer chocolate; alcoolizar-se, fazer sexo como fuga; assistir televisão: tudo isso é morrer e deixar-se quedar no Tártaro, onde a falta, o vazio são perenes e a procura insaciável.

16 - No Tártaro, alguém que morre de fome e sede eternamente num vale frondoso ao pé de um lago de águas frescas vê os frutos lhe fugirem de entre os dentes e a água evitar seus lábios quebradiços. Outro move morro acima uma pedra que sempre rolará abaixo. Ou enche um vaso sem fundo.

17 - O Tártaro é a morada definitiva dos que vivem de atos vazios e têm suas pulsões, seus instintos e impulsos castrados, tornadas vãos, torturados e torturantes.

Já os que injetam no ato seu fantasma interno, i.e., o ilimitado de si, estes são catasterizados: volvem a constelações.

18 - Ou, senão, vão para os Campos Elísios, onde, em oposição ao Tártaro, há infinita saciedade.

Nada se desfaz no tempo realmente, exceto em aparência, perante os sentidos e a consciência.

Tudo está e estará onde sempre esteve, morto ou vivo, vazio ou pleno do indivíduo ou ilimitado.

19 - A existência é por excelência trágica, i.e., efêmera: aparenta se desfazer numa sangria inexorável, terrível; mas, deveras, clama pela superação desse “páthos”, não por meio da tarefa tartárea de evitá-lo, senão pela coragem de amá-lo e amar o que a vida traz, seja dor ou prazer.

20 - O Amor Fati, amor dos fatos, outro emblema de Nietzsche, leva à descoberta do belo trágico, que nos faz valorizar nossa dor, nossa perda, nosso desejo, quando alcança seu objeto e se deleita ou quando o não alcança, mas arde, pulsa pleno de toda essa paixão sem qualquer mortalha!

21 - Sem qualquer anestesia ou disfarce para o que vem do -- corpo; do corpo profundo, do Eu profundo, este, sim, absoluto: posto para aquém (para cá) do espaço-tempo, do agregado sensível. As imagens internas são abstrações, sinais do corpo mesmo, do corpo em si, -- esse Eu absoluto.

22 - Tal como as imagens ou fantasmas externos, dados pelos cinco sentidos, são abstrações das coisas em si, postas para além do espaço-tempo.

Vejamos, ouçamos, toquemos as coisas-no-mundo, essas imagens, e vivamos, sintamos tudo aquilo que é do corpo.

O que mais pudera ser sagrado?

Igor Buys

Ilha Grande, 03 de agosto de 2018

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