MARROM VERMELHO

Asfixiados, afogados, fraturados, comprimidos
entre escombros, entre entulho, lodo e esgoto;
rostos, vozes, gente, gado, gato, coisa, corpo;
parede sem emboço, carcaça sem pele, osso nu;
jornal de folhas sujas, marrom, vermelho, gris,
tudo se misturando, tudo se separando: a vida,
a morte, a fome, a dor, a arrogância, a pobreza,
a maldade, a riqueza, o deus, tudo se revirando;
igreja alagada, hóstia a boiar, a bíblia e a bosta,
padaria aberta, pão que já não mata fome viva;
boi que bóia, carro que jorra; mulher e cabelos,
íris cinzenta, sapato, canoa, caneta, tapete alado
sem mágica, barulho de rio, cheiro de açougue.


Igor Buys 
14 de janeiro de 2011

In Versos Íncubos, 2014

 

 

Reprodução: Mark Rothko

 

 

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