LOBO EM GALOPE

Coração, como voas!
Como uivas, 

como foges! 
e farejas
noite adentro 
no horizonte 
um resto morno
de sol-pôr
com que entretecer
tuas quimeras!

Qual’m lobo
te arrojas
quando adentras
pela treva 
além da esquina
além da lua;
e em teu galope,

galope, galope
vais buscar 
a quem tu amas...

Mas quem tu amas,

viajante sem freio,

mora inda mais longe

que o mar fundo depois da Enseada,

― ai, mar de fogo negro!

de águas cálidas, prata e ouro fundidos!

ai, mar de cegas labaredas!...

 Quem tu amas,
metamorfo ser de magma,
vive além do último monte negrejante,
onde há neve e vulcão,

palavras que se dissolvem em vapores...,

mas não procuram o Cruzeiro, senão outras constelações;

e eis que agora,
assim ofegante,
assim sem rumo,
precisas da minha poesia,
dos meus cristais sem rocha.

Ai coração,
que te sirvam, ao menos
de afago, meu lobo latente
no peito rasgado,
meu pássaro de puro ruflar

rufando o ritmo 
do teu argento vôo sem limite!

Mas se desejas que escreva,
te ponhas em calma,
meu potro negro,

potro negro, potro negro,
corcel de estrondo e palmeiras escabeladas,
que assim não posso, não sei fazer:
meu verso é pouco para cabê-la,

à tua amada, 

à nossa musa,

e o mar é pouco,
há pouca tinta no quarteirão,

no País! no mundo: 
melhor tentares, então:
com teu galope,
com tua fuga e transcendência!... 
Ai, coração, coração!
Reverso da noite!
Como galopas, galopas!...
Como incendeias!

dando luz aos cegos pelas estradas,

cavando dia em meio à surdez opaca,

levando meu verso entre tuas presas

palpitante

-- como um filhote.

 

Igor Buys

01/02/2011 a 21/10/ 2018

 

 

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