ONIRONAUTAS

Outro dia, durante a sesta, sonhei contigo.

Eu tinha a cabeça entre as tuas coxas e me puxavas para mais adentro de ti,

puxavas coas solas dos teus pés e as unhas lentas a contrapelarem meus cabelos.

Acordado, não sabia se era memória ou fantasia

o que emprestava cozedura a tais imagens... (Mente turva).

— Tique-taque, tique-taque

Coisas quietas, muito quietas à minha volta.

Os objetos como que temerosos da luz da tarde,

do despertar de tal sesta, se escondiam espectrais

por detrás do tramar aracnídeo duma noite ainda remota.

Seria uma noite fria. Chuva gelada sobre a areia

que a traga a haustos largos, náufragos. Chuva,

chuva; chuva e vento, vento; farfalhares, luzes ébrias.

Creio que precise de ti para sofrer.

Estou frio. Já não sei sofrer por nada

exceto por ti. Não há fogueira outra que me purifique.

Preciso de ti para morrer. Do contrário, sou capaz de resistir

aos séculos como as montanhas secas de almas gélidas

que o sol não penetra e digerem a escuridão e o abismo

em pedra, em silêncio sólido, insuplantável.

Preciso de ti para morrer.

O mar sempre me traz pulsão de morte.

Morte doce e líquida como os teus cabelos,

calma e cega como o teu regaço.

O mar à noite é o revés de um incêndio descomunal.

Ali se desfazem em cinzas fantasmas azuis, navios de âmbar.

Preciso de ti para sofrer e morrer.

Outro dia, durante a sesta, sonhei contigo.

Igor Buys

Ilha Grande, 04 de outubro de 2018

Craig Tracy; bodypainting

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