GATA SELVAGEM

Como uma cascata de sombra e aurora
desembaraçando-se da bruma argêntea,
rumando para um Lago Trasimeno*,
assim sangram os teus cabelos dolorosos,
tragicamente. És uma gata selvagem,
rubro-negra e esquiva, de pele alva, lunar;
tens a alma de um vulcão a estrondar
dentro de ti e a transbordar-te violenta.

 

A filha do Ragnaröc, de meias negras,
rasgadas, de botas agudas, brilhantes,
a pisotear escombros, cruelmente.

Entanto o teu sorriso é angélico.
Todo o teu corpo tem a cor que,
em geral, só conhecem os seios
e os botões mais tímidos e noivos.
Há algo de materno, docemente lácteo
a irradiar-se como um clarão por entre
as garras, armaduras e gládios da Fera.

Uma Joana do Arco incendiada
entre as próprias chamas; meio bruxa,
meio santa — inteiramente feita de loucura.

 

 

Igor Buys
In 'Versos Íncubos'

 

____________
*Alusão à batalha do Lago Trasimeno (217 a.C.).

 

 

 

Mélissa Polito

 

 

Please reload

Postais em destaque

VERSOS ÍNCUBOS

17.11.2019

1/14
Please reload

Postais recentes

17/01/2020

17/01/2020

17/01/2020

14/01/2020

Please reload