PROTÓGONOS; IV - ÍCARO

Numa tarde de sol forte, Vimo-nos prontos. As asas que confeccionara Estavam presas aos nossos corpos. Fizéramos sacrifícios a Apolo Com um grande número de falcões E frutos. Estávamos prontos. Começamos a meditação pela manhã. Quando adentrou a tarde, Percebendo que já galgávamos as alturas Despertei Ícaro com cuidado E fi-lo ver que levitávamos. O átrio e todo o labirinto iam-se Tornando menores e menores Sob nós. Ascendíamos em posição De lótus, seguindo a tradição Dos orientais. O vento nos ia levando para fora E para longe do nosso antigo cárcere. Tudo ia perfeitamente bem.

Contínhamos a alegria e qualquer paixão

Para não nos perdermos da leveza que nos libertava. Aterrissaríamos, aos poucos, Mais e mais densos, ligeiramente Mais pesados que o ar, Sobre o veludo da relva segura. Entretanto, o jovem Ícaro, Cometeu o desatino de desafiar O Sol. Confiante na forma de Levitação que desenvolvêramos, Ousou ele elevar-se mais que o necessário, Aproximando-se de Hélio, como fosse, Ele próprio, um deus, capaz de voar. Abriu os braços e mostrou as mãos espalmadas Para o furioso senhor da luz e da vida E conforme ascendia, cada vez mais rápido, A cera que prendia as penas em suas asas Foi-se derretendo... Embora, as asas não fossem mais que símbolos, Ao vê-las desfazendo-se numa chuva de plumas Pelo ar, Ícaro povoou sua mente imatura De temores e perdeu a concentração! "Ai, não!" Em queda agora pelos céus abaixo, desferia dolorosas cambalhotas pelo ar e toda a armação de [sua asas se fraturava e desprendia de seu corpo; Atônito, juntei as mãos em ponta e me lancei como uma seta atrás de meu filho, tentando [alcançá-lo antes que ele colidisse com o solo; Por ironia ou por desígnio de Eólo, os ventos foram nos levando de volta para dentro do átrio, [no centro do labirinto; O rapaz ia caindo exatamente na direção daquela fonte de águas negras, misteriosas, que nunca [espelhavam os céus; Quase o alcancei antes que desaparecesse em meio ao negror liquefeito daquele macabro fosso [amaldiçoado, mas... arre, falhei! Mergulhei na fonte em seguida a meu filho e, conforme imergia, sentia que as minhas carnes e [mesmo o meu espírito se dissolviam no que parecia ser a [indefinição completa, o nada absoluto... a alma e o coração... Do Caos...

Igor Buys

27 de julho de 2018

Matisse; "Ícaro"

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