HÁ DIAS EM QUE É MELHOR NÃO ESCREVER POESIAS

Há dias em que é melhor não escrever poesias.
Convém deixar calada a torneira rubra que a branca
é mais fácil de desvirar... E não queima nem turva
a janela, o espelho, as formas vítreas da imaginação.

Há dias em que é melhor não escrever poesias.

A toalha molhada de beber meus silêncios dependura-se.
Os ladrilhos: quadrados. Tapete de pétalas plásticas.

O chão encerado refulge. Sala vazia de algo
que entanto inexoravelmente a preenche.

A janela interrompe o vento, estrangula a paisagem
que ainda assim adentra impunemente o recinto onde
não estou mas insisto na condição de hipótese semi-
nua de um homem e sua toalha cor de telha. Frio...
Arrepio em pleno verão escaldante de cores estranhas,
quase hostis. Cores como gargalhadas excessivas que
se rasgam no ambiente austero, reflexivo. Triste, talvez.
E esse talvez é o que há de mais terrificante. Calma.

Coma. Impassibilidade veterana de tantas batalhas semi-
vencidas, talvez. Ou ao contrário. Não dá no mesmo?...

É... Há dias em que é melhor não escrever poesias.

Alguém está morto no assoalho. Mas ninguém está morto
no assoalho, embora urgisse algum cadáver. E isso, essa limpeza
e conveniência é o que há de mais terrificante. Coruja de cobre.
O duro olhar desse bicho. Máscara indonésia na face da parede;
o grampo da rede, anormalmente metálico. Luz que estala
e quase dói em cada superfície polida, ensangüentada de sem
sangue ou cheiro, ou grito, ou corte. A falta de um gato, de um
rato ou cão. E isso tem quatro patas e ruge, ou quase. Depois,
se esconde: e fita...

Há dias em que é fundamental não escrever poesias.


Igor Buys
In Versos Íncubos; ed. Scortecci, 2014

 

 

Cenas da primeira fase do do golpe 2013-2016

 

 

 Assassinato do cinegrafista Santiago Idílio

Corpo do cinegrafista Santiago Idílio 

 

 

 

Tags: Marcelo Freixo

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