CAMARÃO VG

Estávamos num restaurante, numa terra distante e morna. Ali vivemos algo que quando presente, tinha sabor de passado e uma vez passado, é um pouco presente e futuro. Mas esquecimento, jamais.

Eu não era perfeito enfim. Eu não era perfeito no começo. E no fim não era perfeito de novo por outros motivos. Eu era um homem. Estava só. Eu era um menino. Estava só. Nós estávamos lá desde sempre e para sempre. Eu era um homem, eras uma mulher.

Os meus olhos nos teus olhos nus meus olhos, nus teus olhos nus e sós, luz e sons som e sombra, ecos, cores… Chegou a comida.

Demoramos a tocá-la. À comida. Tu te lembras?

Eu parti com a mão o camarão VG do teu prato. (Podes lembrar?) Retirei a cabeça da iguaria, pu-la entre os teus lábios… O gosto. O cheiro. “Prova” (podes me ouvir?) “Não morde…, apenas chupa”. (Na tua memória, são passado perfeito ou futuro do pretérito esses verbos ressurretos?) -- olhos nos olhos nos olhos nos olhos “Come”. E “come mais”... Ainda me ouves? Meu polegar na tua boca; depois, o indicador, o dedo anelar, que bebes, que limpas…

Tuas mãos segurando os teus tornozelos, minhas mãos sobre as tuas mãos, te dando apoio, sustentação; teus cabelos roçando o assoalho. O assoalho abaixo. A borda da cama.

Eu era um homem. Estava só. Eu era um menino. Estava só. Nós estávamos lá desde sempre e para sempre. Eu era um homem, eras uma mulher.

Igor Buys 22 de julho de 2018

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