TRANSCENDENTE, IMANENTE E TRANSCENDENTAL; CATASTERIZADOS, CTÔNICOS E TARTÁREOS

1 / 10 - O real comporta três planos: (1) o caos pré-material, onde habitam os ilimitados, no mito: divindades siderais e titãs de primeira geração; epistemologicamente: sentimentos, emoções, intuições; (2) o caos já material: plano de instintos, pulsões, mutatis mutandis: o id de Freud; e (3) o cosmos. A tais planos correspondem, ainda,  percepção, apercepção, reconhecimento. Ora, sentimentos, emoções são apenas percebidos...

 

2 - O Todo, Holón, é maior que o real, e encerra três instâncias: a transcendente, que é interna e externa ao eu; a transcendental e a imanente.

 

3 - O eu também é maior que o real, tendo, interno a si, um portal para o transcendente. O que está sito aquém do AÍ é: o transcendente interno.

 

4 - O que está sito além do AÍ, ou do outro, ou do mundo, é o transcendente externo (ao eu). Todavia, neste ponto, surge-nos um problema básico.

 

5 - Unidade e multiplicidade, externo e interno são pares caóticos, de índole já bem conhecida por nós. I.e., são elementos: da linguagem mesma.

 

6 - Da linguagem, que é o conjunto das abstrações da res em-si, somada à estrutura de três níveis, sobre que tem fulcro todo o edifício do real.

 

7 - Com base em que supormos que o em-si das coisas-no-mundo seja uno ou múltiplo? E, em lhe faltando tais atributos, seria o Ápeiron (ἄπειρον).

 

8 - O Ápeiron ou indefinido: noção diversa da de ilimitado, malgrado as más interpretações de Anaximandro de Mileto, o poeta das contrariedades.

 

9 - Não sendo uno nem múltiplo, o transcendente prescinde de ser dois: um interno e outro externo. E eis que nos flagramos a confluir com Hegel.

 

10 - Este propõe, tomando emprestada a lógica triádica de Fichte, a unidade de sujeito e objeto no que, bem equivocado, designa Sujeito Absoluto.

 

11 - Sabemos, o sujeito não tem como ser individual, menos ainda absoluto: o seu campo é o do reconhecimento, por força privativo do eu-coletivo.

 

12 - Esse eu cultural e lingüístico, que é sede dos universais, sobre que querelavam os medievos; é sede dos esquemas compartidos do significado.

 

13 - O modelo hegeliano é idealista: desconsidera, como a criança pré-cósmica, o em-si, a qüididade das coisas-do-mundo — uma ingenuidade datada.

 

14 - A linguagem da ciência indutivo-experimental, com que encetamos este exame, desnuda de todo o hiato inelutável entre a imagem e a res em-si.

 

15 - Mas é mister anuir quanto à impossibilidade de diferenciar o que está AQUI, para aquém do real, do sito — LÁ, para além da abstração da res.

 

16 - Quanto à imanência, tal é a instância dos átomos epistêmicos, diádicos e triádicos; das coisas concretas, definidas: postas no espaço-tempo.

 

17 - A imanência, ordem do Ente, abarca, destarte, tanto o caos material como o cosmos. Mas o Ser, que é menor que o Ente: se confunde ao cosmos.

 

18 - O Ser são os-homens, é a nação. Não há um ser humano de pé na esquina. O Ser, que só pode ser humano: são os-brasileiros. São os-holandeses.

 

20 - Os-bolivianos são um Ser. Conquanto o seu Estado se proclame plurinacional. E eis um dos momentos em que a nação e os-homens se diferenciam.

 

21 - O caos material, plano das díades xifópagas, dos hecatônquiros, se situa no limiar entre mundo e pré-mundo, surgindo, em erupções, no Οίκος.

22 - O transcendental é o plano do ilimitado ou indivíduo. E da individualidade. É substancial ao mundo, neste se injetando sob autodeterminação.

 

23 - Liberdade indeterminística é um conceito comprado pelo liberalismo à teologia de Luís de Molina, mas órfão de um espírito que lhe dê fulcro.

 

24 - Urdido por Locke como teologia leiga, o liberalismo é um sistema intensamente mágico. A liberdade só é plausível hoje como autodeterminação.

 

25 - E mesmo de ponto de vista não-laico. Ninguém, exceto os liberais, nega mais que haja um id e outras formas de inconsciente a moldarem o ato.

 

26 - Ora, o que é autodeterminado ainda é determinado. São as injunções do corpo, da natureza que nos levam a agir, nunca uma vontade autogênica.

 

27 - A busca por autodeterminação constitui empresa de autoconhecimento: auscultar, sopesar, inteligir o que mana do corpo em si, do Eu profundo.

 

28 - E, enfim, filtrá-lo pelo senso, que, por força, é cultural e da alçada do eu-coletivo, da razão; mas evitar a obediência cega, automatizada.

 

29 - E sempre injetar no ato o ilimitado de nós: instinto, impulso; o intuir, o sentir. Sem o que o ato é morto e o ator ausente: alienado de si.

 

30 - Obediência, já discutimos, é o ato de alienar o ato. Algo a que a liberdade mágica dos liberais cede tão facilmente, como flagrado por Marx.

 

31 - É a mercadoria, animada por meio de técnicas goebbelianas, que acaba comprando, consumindo e logo descartando o tempo, a vida dos alienados.

 

32 - Estes não sabem sequer se desejavam aquilo porque se trocaram, e vêem, em relances, toda a fraude que os reifica e, assim: atira ao Tártaro.

 

33 - No Tártaro, tais criaturas vivem imersas em água que resiste a seus lábios, sua sede; tocam frutos vistosos que escapam à sua fome infinita.

 

34 - Enchem vasos sem fundo; rolam pedras penedos acima que sempre deslizam; há um caráter de moto-contínuo e de vazio em cada suplício tartáreo.

 

35 - O que resume o destino do liberal, do consumista: sempre um autoconsumista insaciável, ausente de si mesmo, da vida e em perpétuo desespero.

 

36 - Trabalho, de mim, com a idéia nietzschiana do Eterno Retorno do Mesmo: estarei no AQUI-AGORA infinitas vezes e os ocos de si são do Tártaro.

 

37 - Os insones, ninfomaníacos; os mentirosos, os detratores; os imitadores, plagiadores são todos do Tártaro. Devorar-se-ão a si mesmos: sempre.

 

38 - Já os que injetam o ilimitado de si, sua individualidade em cada ato, conhecem o galardão da catasterização: transformam-se em constelações.

 

39 - A catasterização, prêmio maior que os deuses conferem aos que completam seu tempo, simboliza a junção do atemporal, da alma com o histórico.

 

40 - Alma é uma visão poética do que é ilimitado, indivíduo — transcendental em nós. Autodeterminar-se é, destarte: catasterizar-se, em cada ato.

 

41 - Interiorizar-se, viver no “flow”, no fluxo e, assim, se esquivar do aspecto agônico da vida pode garantir a paz das regiões amenas do Hades.

 

42 - É a vitória sobre a morte, i.e., o Tártaro, onde o verme é eterno, e há eterno ranger de dentes, diz a tradição bíblica, pela via — ctônica.

 

43 - Mas, no nosso entorno, é fácil discernir, quais são catasterizados, cálidos; quais são ctônicos, lúgubres. E, ainda, quais são os tartáreos.

 

 

Igor Buys

2016

 

 

 

Gustavo (Gustav) Klint; Morte e Vida

 

 

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