REINO UNIDO PROÍBE ANÚNCIO POR "EXPLORAR" MULHERES NUAS

A Advertising Stardards Authority (ASA), autoridade que regula a propaganda no Reino Unido, aceitou as queixas dos consumidores e pediu o cancelamento de uma campanha da marca de roupas American Apparel (AA) por utilizar imagens de mulheres jovens descobrindo os seios e as nádegas, de acordo com informações da associação. A ASA considerou que as imagens tratavam as mulheres de forma exploratória e a propaganda poderia causar uma "ofensa séria e generalizada". (Terra notícias)

 

 

1 - Intrigante paradoxo... Na União Soviética, havia uma liberdade muito ampla em relação a sexo entre homens e mulheres, de que os russos se orgulham ainda, até hoje. Está, inclusive, no seu cinema de modo quase panfletário. Os europeus, em geral, são tão espontâneos em relação a sexo e nudez como nós, brasileiros, até mais um pouco. Na Alemanha, por exemplo, as pessoas tiram toda a roupa em algumas praias; noutras homens e mulheres cobrem apenas os órgãos genitais. Os ingleses e os estadunidenses, entretanto, são extremamente repressores em relação ao sexo entre homens e mulheres e à nudez especificamente feminina. O futebolista Davi (David) Beckham a mostrar as nádegas, e.g., não causa espécie aos anglófonos, haja vista a foto abaixo, assaz difundida.

 

 

2 - A cultura liberal, no século XX, se definiu por oposição ao mundo socialista, essa é uma das explicações possíveis para o quadro em foco. Outra linha de avaliação do fenômeno nos levaria à oposição naturalismo versus artificialismo.

3 - O liberalismo é essencialmente artificialista, negando a natureza humana. João Locke dizia que a criança era uma — tabula rasa, ou seja, “um papel em branco, onde tudo podia ser escrito”.

4 - A paideia liberal nega a natureza, os instintos, as tendências e vocações, procurando removê-los, pois entende que a verdadeira criança é feita de lógos, i.e., da palavra liberal — uma adaptação da paideia cristã, segundo a qual o lógos divino e a palavra, que é Cristo, "matam a carne" e vivificam o espírito.

5 - Assim, a criança verdadeira, para os liberais, emerge conforme desaparece a criança natural, tida como essencialmente má.

6 - Já as linhas libertárias de educação pregam o estímulo da natureza particular de cada criança, o cuidado em não reprimir os instintos, a espontaneidade — vide o livro Summerhill, ou Liberdade sem medo e a linha rousseauniana de educação.

7 - O embate entre naturalismo e artificialismo continua na não assimilação de Freud, no que contém de instrumental em relação ao estudo da totalidade, e mesmo em relação à psicanálise, em suas implicações mais profundas, pelo Ocidente, que prefere, no XX, o existencialismo de Sartre e outros.

8 - A liberdade como o liberalismo quer pensá-la não pode ter vínculos com o corpo, não pode emanar de um determinismo de fundo, com pulsões do id sendo apenas filtradas pelo lógos cristalizado no superego. Isto, no limite, conduziria à — abolição penal, pois ninguém poderia ser responsabilizado por atos que emanam da natureza fisiológica, determinística, inconsciente, e que a educação pelo lógos liberal não foi suficiente para refrear ou sequer pretendeu isso.  À imitação do cristianismo, por constituir-se, basicamente, numa teologia leiga e um tanto tosca, o liberalismo prega que se contemple a árvore dos frutos proibidos sem tocá-la, mas nada faz para direcionar a criança que pretende construída de palavras no sentido de não incorrer no delito. A liberdade como livre arbítrio — e não como autodeterminação — deve ser mantida intacta para que os delinqüentes (ou pecadores) "optem" pela virtude ou, do contrário, sejam punidos..., torturados com encarceramento em jaulas, ou até condenados à pena capital.

9 - O ato, para ser punível perante o Direito, tem de ser inteiramente autônomo, derivar do arbítrio puro, indeterminístico, e, ainda, ser plenamente consciente.

10 -No pólo oposto, o socialismo representa a volta à natureza. A volta à natureza interna, ponha-se reparo, do corpo, que resgata o humano íntegro de que fala Rousseau, não contaminado pela sociedade depravada. Este homem, por ser naturalmente social, tenderia a conviver coletivamente de modo harmônico, esquivando-se, quando sadio, do egoísmo que produz os contrastes graves e estes, os crimes dos injustiçados e oprimidos contra os beneficiários da exploração e da injustiça.

 

 

Campanha que ofendeu os britânicos

 

11 - O embate entre naturalismo e artificialismo, enfim, se reflete sobre a ojeriza dos ingleses e estadunidenses pela nudez da mulher, pelas relações sexuais, digamos, — animais, sendo-lhes mais fáceis de arrostar, esteticamente, as relações entre pares homoafetivos.

 

12 - Ou seja: ao definir-se por oposição ao Leste europeu democrático no século passado, o Ocidente liberal incorpora fundo a maldição da mulher, que perpassa o cristianismo, mas, deveras, vem a ser uma assimilação pura da misoginia reinante na Grécia do século IV a.C., com o elogio da paiderastía e do amor platônico como — artificializações civilizatórias, no sentido da fuga da barbárie naturalista.

13 - O liberalismo é, em suma, como sempre dizemos, — o inconsciente e invertido Cristianismo do Deus Morto: uma antítese do cristianismo que conserva toda a sua estrutura básica, substituindo, entanto, o Bom, ou o bem, i.e., o amor em si, substancial, pelo capital; o altruísmo racional pelo egoísmo ideológico; a compaixão e a inteligência empática pelo pragmatismo alienante, etc.. Assim, a maldição das mulheres, das bruxas, migra da Grécia até o liberalismo, mediada pelo cristianismo, e dá forma a toda essa repressão desmesurada contra o elemento yin que se observa, produzindo uma sociedade, tal como a grega do período dito clássico, castrada, assexuada, — anti-erótica e anti-amorosa em essência.

 

 

Igor Buys

04 de abril de 2012

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