IPAUM GUAÇU E O PESO

Na tarde azul e prata, a confraternização em família foi breve mas boa

À noite, após a sesta, saí para comer

O sushi valeu mais pelo ambiente, em frente à pousada Paraíso Ilha Grande

e pelo cigarro de cereja ao som do forró de primeira

que se expandia dum botequim aceso, vinte metros adiante

Dispensei a sobremesa japonesa e acabei indo esbarrar

com um sundae de cereja numa mesa sobre a areia junto ao cais,

vela dentro de um vidro, e mais música brasileira fulgurante vinda dum barco

A Ilha Grande é uma festa.

Comprei um charuto na Olê Olá e vim para o escritório

Dezembro é mês de beber e bebida pede tabaco

A Ilha Grande é uma festa...

Uma festa que, com o tempo, se vai tornando

melancólica, como o são, em geral, os Réveillons

E à sombra de tal festa há — um peso.

Peso: foi o termo que usou hoje uma tia minha

E acrescentou que aqui houve o presídio, os escravos, o massacre dos índios...

Visão dela, da Tia Irma

A Ilha, algum dia, se chamou Ipaum Guaçu

E a habitavam indígenas navegantes

Os quais, segundo alguns livros, foram sistematicamente exterminados por esquadras

[inglesas invasoras cuspidas de entre as neblinas do horizonte como dardos: matavam a

[força de trabalho, — trabalho escravo —, de que poderiam se valer os portugueses

[e espanhóis

Os Mac-Cormick e os Christianes eram corsários: pirates que singram e sangram os

[mares sob uma bandeira. In casu, a azul e rubra bandeira inglesa.

E estes, é claro, se fixaram aqui e eram os nossos*

Então, se há um peso em razão disso, inclusive; seja consciência, ou lá o que for: é justo

[que o sintamos

Igor Buys

Ilha Grande, 22 de janeiro de 2018

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*Minha avó era nativa da Ilha Grande e se chamava, quando solteira, Zélia Mac-Cormick Christianes

Portinari; "Índio e Hans [Staden]", ilustração para livro que não foi publicada (1941). Fonte: Ciência Hoje

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