EMPATIA DE PRIMEIRO E SEGUNDO GRAUS E IDENTIDADE

Empatia e compaixão são duas palavras cunhados no português sobre a mesma ancestral grega: páthos ou πάθος, i.e., paixão como aparece entre nós, mais correntemente, na expressão: a paixão de Cristo. Mas não significa necessariamente suplício, senão qualquer estado de exaltação dos sentidos.

 

A inteligência empática foi estudada primeiro em alemão, Einfühlung, chegando à nossa língua com forma atual através do inglês emphaty.

 

Teodoro, Theodor, Lipps (28-07-1851 a 17-10-1947), psicólogo racional alemão, muito admirado por Freud, foi o primeiro a se debruçar sobre o fenômeno empático, estabelecendo dois estádios no processo: projeção emocional, ou psicológica (Einfühlung) e fusão emocional. Lipps pretendia que o apreciador de obras de artes se projetasse emocionalmente na direção destas e, enfim, se fundisse, no âmbito psicológico, numa espécie de experiência extática, aos objetos do seu deleite de sorte a ser capaz de bem apreciá-los.

 

Entanto, para essa ordem de projeção e fusão, dirigida a objetos inanimados ou animálias, vamos utilizar, de nossa parte, outra palavra bastante conhecida dos gregos antigos, de Platão a Plotino, e que também tem como núcleo páthos: sympátheia (συμπάθεια). O que não elide a empatia do apreciador de arte em relação ao artista a partir do que Fernando Pessoa menciona como simpatia pelos signos (ou símbolos) de que este se vale.

 

Para compreendermos como se dão os fenômenos de empatia, compaixão e simpatia precisamos partir de dois pressupostos.

 

Primeiro: metafísica é semiologia e semiologia é metafísica. Tal premissa demanda um escrutíno à parte, mas, por ora, aceitemo-la, ainda que provisoriamente, após mui sucinta análise.

 

Segundo: a identidade é, nada mais nem menos, que um signo de natureza indicial, i.e., consoante uma das tricotomias de Peirce, a mais importantes deveras, a identidade se resolve como inserta numa ordem de signos chamada: índices.

 

Tudo o que existe, ou é imanente tem natureza sígnica: pode ser estudado como objeto de linguagem.

 

Apenas o que pré-existe, ou subiste, sendo, portanto, transcendente, foge de ter natureza sígnica: é intangível pela linguagem, ou incognoscível.

 

O esquema kantiano de mundo nos permite pensar em um transcendente interno e em um transcendente externo ao mundo, ao âmbito da linguagem e da existência. O transcendente interno é o — Eu-profundo, aquilo que se localiza Aqui: num tópos absoluto, pois nada pode estar para aquém de Aqui. E toda representação mental do que se localiza Aqui já não se assenta mais Aqui mesmo, senão : no âmbito da linguagem, das mutações, da temporalidade. A metafísica, ou semiologia só pode se ocupar dos signos: as quase-não-coisas que povoam esse : o lugar da existência. Pois quanto ao que é pré-existente e absoluto, já se disse: é incognoscível. Assim, para ratificar: o signo é a quase-não-coisa.

 

Essas premissas são todas, as duas principais e as subsidiárias, derivadas de Kant e, destarte, de relativamente fácil aceitação.

 

Constitui outro assunto a ser tratado à parte o transcendente externo: aquilo que, teoricamente, se localiza Para Além das coisas mundanas, fenomênicas ou fantasmáticas, as quais são todas objetos de pesquisa da semiologia ou metafísica, i.e., são todas signos ou quase-não-coisas, vale refrisar. O transcendente, interno-externo, vem a ser o em-si das coisas como nos aparecem no mundo.

 

Isso posto, vamos definir a identidade como o — signo que aponta para o Aqui, tópos absoluto, habitado pelo Eu-profundo, sem, no entanto, jamais tangê-los, ao Eu-profundo mesmo ou ao seu tópos sequer, o Aqui.

 

 

§

 

 

Lipps pensou o fenômeno empático como psicológico, falando-se, é claro, como já dito, em psicologia de metodologia racional e não indutivo-experimental, ou psicologia moderna.

 

Nós, entrementes, precisamos pensar a abordagem empática, nos dias de hoje, como fenômeno — metafísico, ou semiológico.

 

A identidade, está definida acima, é um signo. Mais precisamente um índice: signo que, tal como uma seta, ou um catavento, exemplos clássicos, peirceanos, referem o seu objeto por uma relação de — contigüidade. Destarte, a identidade, precisamente, aponta para o Eu-profundo e seu tópos, o Aqui, absoluto, por lhes ser contígua, qual uma seta sabe ser em relação a um caminho, uma trilha...

 

Ora, signos são matéria, i.e., abstração do em-si da coisa, e, por isso mesmo, quase-não-coisa. E matéria, já nos fazia ver toda a tradição do pensamento, é: o que se move no espaço (e no tempo).

 

E eis que a identidade, esse signo de caráter indicial, se move no espaço e no tempo de forma peculiar.

 

A identidade se move da posição histórica do ouvinte até a do falante, quando do aprendizado da fala e por toda a nossa existência em sociedade, para que possamos, aos nos posicionarmos no tempo e no espaço ocupados por este (o falante), saber o que ele está a pensar, como refere, realmente, o signo ao objeto. Quebramos, dessarte, a inescrutabilidade e relatividade da referência e nos tornamos seres lingüísticos, capazes de manejarmos uma linguagem comum, compartida, subjetiva-objetiva, a qual encerra e conforma uma cultura e uma nação.

 

A empatia de primeiro grau, pensar como pensa o outro, nos torna, pois, em seres propriamente falantes, culturais e nacionais.

 

A empatia de segundo grau, ou compaixão, sentir como sente o outro, nos tornará, por seu turno, em seres sociais, trazendo à luz o zoon politikon: o animal incapaz de ser ele próprio sem conviver; incapaz de identificar-se a si mesmo sem se identificar a outros, os quais compõem um grupo social, uma nação. Como salienta o jurista Jellinek: o humano insulado da sociedade é uma ficção.

 

 

Kandinsky

 

 

 

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