A PROFISSÃO MAIS PERIGOSA DA TERRA E A SOLUÇÃO DE SEU CONFLITO INERENTE

O setor madeireiro, segundo dados de 2000, da Fundação de Segurança e Medicina do Trabalho — Fundacentro, órgão ligado ao Ministério do Trabalho, acarreta o maior número de acidentes fatais entre trabalhadores registrado no Brasil: 37 mortes anuais em cada amostra de cem mil empregados. Nos Estados Unidos, sabe-se por alto que a profissão de lenhador também está entre as mais perigosas, seguida de pescadores, metalúrgicos, lixeiros, caminhoneiros, embora, ao que parece, o estudo da Fundacentro, mostrando um ranking das profissões em que há maior risco de morte seja mais ou menos ímpar: nem a OMS, salvo engano, se ocupou, até hoje, de estimativa semelhante.

Ainda segundo os dados da Fundacentro, a extração mineral mata 29 trabalhadores, anualmente, a cada amostragem de cem mil; a construção civil ceifa as vidas de 26 e a indústria petrolífera, as de 25 operários dentro das mesmas bases comparativas de cálculo. O setor energético, por fim, acarretava 18 acidentes fatais em grupos de cem mil trabalhadores, no ano 2000.

Mergulhadores, policiais, mineiros que trabalham em minas subterrâneas também são apontados, mundo afora, como profissionais que enfrentam a face da morte cotidianamente. Entrementes, entre todas, há uma profissão que, no planeta inteiro, representa o mais assombroso risco de morte em ocupação laborativa já calculado: falamos de números como 9.091 homens a cada cem mil! Ou: um a cada onze! Ou quatro a cada quarenta e quatro... Enfim, como o leitor já suspeitou, sim: estamos a falar da profissão de presidente dos Estados Unidos.

No bangue-bangue Unforgiven (Os imperdoáveis), do diretor roliudiano Clint Eastwood, que conquistou os prêmios Oscar de melhor filme e melhor diretor do ano de 1992, há uma cena emblemática em relação a esse fenômeno. O pistoleiro britânico Bobe Inglês (English Bob), vivido pelo ator Ricardo Harris, comenta, num trem de passageiros lotado, como tem hábito de fazer nos dias 4 de julho, data em que se comemora a independência daquela nação, que os estadunidenses deveriam considerar a possibilidade de arrajarem um rei ou uma rainha, a fim de tentar remediar o problema em exame. Em termos literais, assim se expressa Bobe Inglês: I don't wish to give offense when I suggest that this country should select a king, or even a queen, rather than a president. One isn't that quick to shoot a king or a queen — the majesty of royalty, you see.

A sugestão de Bobe Inglês não é irônica, senão cínica: não é nada sutil, como a ironia tem de ser para ser ela mesma; ao contrário, busca, na via parrésica, trazer à tona um conjunto de verdades acaçapantes. Mesmo a postura do pistoleiro evoca de longe a de Diógenes, com sua lâmpada acesa, em plena luz do dia, a procurar por um homem de verdade na misógina Atenas do século IV a.C..

Algo que absolutamente não se encaixa no modo de vida e, mais além, no modelo de mundo estadunidense é, óbvia e incontestemente, a nobreza, em qualquer sentido que se possa atribuir ao termo. Na América do Norte, a virtude e o respeito que esta possa angariar, nunca têm como se confundir com nobreza, ou se basearem em majestade, posto que tais substâncias jamais fizeram parte da História daquele país, a não ser, quiçá, como ponto de partida para se definirem os estadunidenses por oposição antitética.

Antes de seguir nesta linha de raciocínio, cabe lançar um olhar crítico, com o mesmo foco, sobre o cenário pátrio. E, isso feito, conclui-se logo, inelutavelmente, que, no Brasil, nação que jamais rompeu de fato os laços com a Europa, conquanto a Constituição de 1988, idealisticamente, preceitue que todo poder emana do povo, a substância do poder é, ainda hoje: El-Rei. [...] Este entanto, para governar impérios, deve, por força, outorgar autoridade a senhores locais e, no País, o faz, originariamente, concedendo as Capitanias Hereditárias a donatários, os quais são próceres e quase sempre nobres.

Quem deseje entender a nossa amada Nação tupiniquim, na complexidade dos seus acertos e desacertos, deve principiar pela leitura de Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre: são as estruturas feudais de poder, a certo ponto fundamental de nossa História, baseadas na figura do senhor de engenho, que conferem arcabouço à sociedade brasileira verticalizada como a conhecemos: nesta Terra, onde, não obstante, se pratica a tolerância em relação às diferenças, nem o dinheiro vale mais que o justamente criticado princípio do “sabe-com-quem-está-falando?”. Isto é matéria de fato e com ampla prova empírica a ser elencada. A sociedade senhorial deixou marcas tão fundas no psiquismo coletivo dos brasileiros que toda a classe média se sente composta de pequenos senhores, desde a infância.

Mesmo nas comunidades carentes e nas áreas suburbanas, ou de periferia, as famílias fazem questão de comandar e ostentar suas empregadas domésticas, as quais seguem as patroas orgulhosas pelas feiras livres, resíduos vivos do sistema escravista. Não raro, essas “secretárias do lar” têm quase o mesmo padrão social de suas, em geral, benevolentes amas, as quais podem ser, inclusive, ex-domésticas aposentadas ou melhor resolvidas financeiramente em função, por exemplo, de um casamento.

Os filhos da classe média são autênticos "sinhozinhos": para fixar um prego à parede, desentupir uma pia, literalmente — e eu mesmo, confesso, fui e sou uma amostra sociológica desse fenômeno — chamam o porteiro ou o factótum oficial do nanoprincipado familiar. Qualquer motivo é motivo para se mobilizar a polícia militar: alguém fazendo barulho à noite em agressão à "Lei do Silêncio" — que nunca foi escrita pela mão de um legislador — , um casal que briga de modo um pouco mais apaixonado, um menino que joga uma pedra no galo em fuga sobre o telhado sagrado da casa. Entanto essa sociedade é afetiva e solidária; como os senhores de engenho eram donos de tudo e de todos no âmbito de suas terras, da colheita e do gado — vacas leiteiras, galinhas — às pessoas, escravos, esposas, filhos, enteados, agregados e empregados, as famílias aprenderam a ver e a sentir todos estes como membros seus e a cuidar deles. Outro traço distintivo senhorial: os tachados de “borra-botas”, ainda que emergentes, e mesmo polidos, cultivados e hipócritas, em geral, morrem tão borra-botas como nasceram, eles próprios e os seus pais. Chega a ser lógico, em certa medida, que a tolerância ande de mãos dadas com tal mentalidade: quiçá somente onde se compreende a profundidade inexorável das diferenças, com suas raízes que se espraiam pelos arcanos da natureza, se pode ser legitimamente tolerante em relação aos fracos, aos anômalos, aos degenerados, aos toxicômanos, aos imigrantes oportunistas e salafrários, aos punguistas de toda sorte. Cada um é o que é, e não se pode mudar isto. Mesmo os quinta-colunas, no Brasil, são tratados, até quando isso seja possível, com magnanimidade, com benevolência e amparados pela capacidade de compaixão que a cristandade cinzelou em nós, como substrato cultural amornado de ternura pelo orgulho da ascendência européia e, porque não dizer logo às claras: cavalheiresca. Entanto é muito bom que se tenha em mente: que tolerância é uma coisa e igualdade, outra. A igualdade é estranha à natureza, praticamente não há na vida animal, e quiçá só exista entre clones, pois que nem mesmo os medíocres, por valerem todos a mesma pataca, conseguem ser deveras iguais. Não: aos diferentes se trate diferentemente, já postulava o Rui, no auge do seu brilho, como fundamento da justiça e da boa ordem. Em oposição, os jovens estadunidenses não se furtam a pintar e consertar as cercas das residências, abrem os capuzes dos automóveis e se deitam no chão debaixo destes com ares de entendidos, além de, sem reclamar, arranjarem empregos de verão durante as férias escolares. Eis um povo simples, que não descende de nobres ou senhores feudais, porém, majoritariamente, cultiva o individualismo ferrenho e conhece o racismo e o fundamentalismo religioso de uma Ku Klux Klan ao menos à meia distância. Diante da crise atual, quando alguns se tornam preparadores (preppers), prevendo o fim do mundo como o conhecem, por conta da falência geral do sistema capitalista ou de qualquer outro sinistro escatológico global que, no fundo, encerra a mesma intuição da insustentabilidade da exploração por tempo indefinido, se cobre, sinistramente, de armamentos de toda sorte, esse humilde decent people, ainda mais que de hábito, com o intento declarado de matar a sangue frio os vizinhos que, pressupõem, virão furtar o alimento estocado em seus porões.

O sistema da mediocridade, ou dessa forma de igualdade uniformizada, que encontra fulcro no ideal de João Locke de impor a toda criança que seja uma tabula rasa, um “papel em branco” onde tudo possa ser escrito, procede, primeiro, a partir de uma paideia já, por aí, sangrenta, à lavagem cerebral e à limagem das diferenças, das vocações, superdotações, inclinações e tendências individuais inatas. Isto é o que torna possível ensinar a elementos de quem se suprime os instintos e a inteligência empática até torná-los em não-indivíduos não-humanos como ser postiçamente indivíduo, e mesmo humano, consoante uma ótica artificialista, que visa à mais-valia como valor maior da existência. O liberalismo, destarte, se constitui num extremamente estranho individualismo sem indivíduos reais, os quais são fatores de uma trama social inevitavelmente selvagem, onde a concorrência e o interesse moldam o ethos. É patente que onde não há natureza, não pode haver nobreza, em qualquer sentido. A virtude em tal ambiente esperitual consiste, pois, em saber remover do caminho, pelos meios que a capacidade de improvisação e adaptabilidade saibam ocasionalmente encontrar, o que interfere no andamento do bom negócio, o good business. E o Estado, cada qual de suas estruturas e representações, necessariamente, será sempre inimigo da liberdade negocial plena, pondo-se, como se vê, na mais crítica das situações.

Ter o Estado como mero garantidor da ordem descrita consiste em solução das mais tacanhas. Empresas privadas de segurança patrimonial desempenhariam tal papel com largas vantagens, sendo mais baratas e, por excelência, mais modernas e "leves".

E, falando-se nesse nicho empresarial, da segurança privada, vale ressaltar que: se a raça irlandesa-americana já assassinou a quatro de seus quarenta e quatro presidentes no Norte deste Continente até aqui, esse número terrificante ainda se deve a um fator limitador forte: os presidentes estadunidenses desfrutam todos, indubitavelmente, de excelentes guarda-costas! sem os quais, nem um único deles teria escapado do destino de Abraão Lincoln... E digo-o sem pretender abusar da linguagem cínica: é um fato: caminhem pelas ruas, como a rainha Beatriz da Holanda, sem seguranças visíveis, sem amplo aparato militar, sem um tanque de guerra disfaçado de limusine e etc., e qualquer presidente estadunidense, em qualquer tempo, será, de pronto, feito em pedaços.

O estilo de poder que naquele cenário brutal de 1776 se consolida, entre treze colônias, desde sempre, praticamente independentes de sua metrópole, dado o pouco interesse da coroa inglesa nos seus frutos, e desde sempre embebidas na atmosfera psíquica de serem o sonho da oportunidade negocial para um povo, em seu próprio território, vencido, subjugado e fundamente ressentido — os irlandeses —, só pode ser exercido, de fato: por grandes companhias. O Estado ali, onde não tem raiz alguma sociológica, psicossocial, anímica é de todo supérfluo e contraproducente. Vivessem os estadunidenses da produção e do comércio, sem constituirem um Estado artificial e sem nexo em relação à sua História, à sua arqué, hoje, eles não estariam tão deficitários e mal-quistos mundo afora. Não teriam se embrenhado por tantas guerras insanas, nem enfrentado atentados tão espetaculares: estariam ostentando riqueza real, e não apenas numérica, visível sob a forma de qualidade de vida, como ostentam o Canadá e boa parte da Europa, e colheriam de toda a comunidade internacional a simpatia natural que merecem os povos e indivíduos que cuidam dos seus próprios assuntos e levam a vida com honestidade e franqueza, como, para bem exemplificar: o nosso Brasil.

O Brasil, sim, precisa ser um Estado, porque isso é inerente à sua História, a qual, por seu turno, se desdobra sem corte da História milenar da Europa. O Estado está na nossa essência como nação e, sem ele, não se pode sequer principiar a compreender o que seja a brasilidade. Mas os Estados Unidos, com toda certeza, podem prescindir desse fardo, para eles, vale repetir, inútil e contraproducente, que é o contrato estatal. Quiçá, de nenhuma outra forma aquele país se erguerá da crise atual. Mesmo porque, outros onzes de setembro virão para impedir completamente essa pretensão de se viabilizar, enquanto exista, como ator interventor e mutilador da autodeterminação de outros povos, uma América do Norte a que sempre faltou tribalidade e que, por isso mesmo, não conhece sequer uma culinária popular típica, assunto para perscrutação à parte. Apenas com a privatização de todo o tecido institucional da terra do Tio Sam, estará salvo o dito sonho americano, bem como aquele modo de vida, ambos, hoje, em tão larga medida, falidos.

Assim, a melhor sugestão de Bobe Inglês aos estadunidenses teria sido, evidentemente, não que selecionassem um rei ou uma rainha, tão estranhos a eles quanto o Estado mesmo, mas: que se entregassem ao neoliberalismo, no seu limite e conseqüências mais radicais! um regime que, com justiça em relação às suas próprias origens, sabem os ianques identificar como — libertário, para que, enfim, se possa erradicar deste planeta a absurdamente crítica e perigosíssima função pública de presidente daquela nação; uma nação que, por vocação imperativa e inexorável, quer ser um conglomerado empresarial e nunca, jamais, em qualquer hipótese, uma república presidencialista.

Igor Buys

22 de outubro de 2011

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