CAMILLE E KENNERLY E A TERCEIRA PÓS-MODERNIDADE

Em letras pretas sobre fundo branco - baixar

 

 

Que deslumbramento o vídeo recente das gêmeas harpistas Camille e Kennerly! com a sua adaptação para harpa acústica e respectiva interpretação de "One", canção da banda de roque estadunidense "Metallica".

 

Trata-se de mais uma transposição da música popular oriunda de seu país natal para o plano do erudito experimental com que nos brindam as lindas "Harp Twins".

 

O processo essencial das musicistas, -- já o disse antes em texto que, creio, se perdeu -- consiste na filtragem de uma forma artística essencialmente dionisíaca, o roque, pelo elemento oposto, apolíneo, representado, ora pela harpa acústica, ora pela, em si mesma, pós-moderna harpa elétrica: um instrumento que talvez possa ser dito, junto com congêneres como o violino e o violoncelo elétricos, de estética "steampunk".

 

Quase tudo nelas é apolíneo: preciso, tendente para a perfeição, ou, quando menos, para o perfeccionismo. Ao tempo em que as entrevistei, via correio eletrônico, para o Projeto Minhas Musas, já possuíam o terceiro dan de Taequendô; já eram atiradoras laureadas com um título de "Distinguished Experts" em "rifle marksmanship" e, ainda, amazonas versadas em equitação clássica.

 

Essa sorte de proficiência apolínea relacionada a artes de guerra confere às gêmeas Kitt um certo charme à "Nikita", -- também me recorda já tê-lo dito, aludindo ao filme de Luc Besson, de 1990 --, e as aproxima no imaginário dos próprios gêmeos olímpicos Apolo e Ártemis, os quais eram ambos atiradores com arco, sendo Apolo, inclusive, o inventor da lira, instrumento precursor da harpa.

 

A harpa está entre os instrumentos mais antigos ainda utilizados na música erudita e sua forma belíssima pretende remeter à do arco e flecha dos caçadores antigos, que, segundo a lenda, a teriam criado a partir das mesmas cordas com que geravam energia para dispararem contra a caça, provendo alimento às aldeias.

 

E a toda essa bagagem intensamente apolínea se soma ainda, de modo inelutável, outra imagem do mesmo gênero: a de dois seres angélicos, tocando esses instrumentos que foram associados, outrossim, aos anjos e arcanjos, e que, dispostos, lado a lado, em par, sempre referem de pronto duas grandes, curvilíneas asas.

 

Camille e Kennerly estão, agora, ainda mais belas e avassaladoramente sensuais do que quando as entrevistei, em 2012.

 

Muito do seu modo de se mover causa a impressão de ser derivado das artes marciais; elas parecem se sustentar, sempre e sempre, sobre bases de Taequendô, ou, senão, como suaves, delicadas arqueiras caçadoras. E mais dançam que caminham, sincrônicas, como bailarinas, haja vista, certo vídeo, em que passeiam de saltos altos sobre a areia de uma praia: os pés da frente se movem adiante, em diagonal, e os de trás rotacionam e os acompanham, derramando o peso de seus corpos de uma perna a outra, sem sombra de esforço ou trepidação; os peitorais se deslocam para cima e à frente e as pontas dos queixos os seguem, com leveza incomum e duas auras de cisnes.

 

Sua música também amadureceu e começa a incorporar elementos novos; num dos vídeos que assisti ontem, elas cantam; noutro, que, a meu ver, as põe nitidamente no campo da música experimental, são acompanhadas por um baterista; e, finalmente, na sua interpretação da canção "One", da banda supramencionada, extraem sons de uma única harpa acústica, tocada a quatro mãos, que, particularmente, nunca tinha ouvido ninguém extrair. Elas produzem efeitos de percussão, batendo sobre a caixa da harpa com as mãos e, uma das duas, com as costas do pé descalço -- precisa e graciosamente retirado de dentro da sandália e, mais tarde, novamente introduzido nesta, de um só gesto -- e dão um espetáculo singular de virtuosismos vários, desde o domínio amplo e criativo de um instrumento erudito difícil de ser tocado, até uma capacidade algo malabarística de equilíbrio físico, com uma nota de orientalidade e intensa musicalidade, tudo içado por certa ousadia criadora e espírito inovador. O resultado é uma delícia de se ver e ouvir; um som que, mais que nunca, pode ser dito conceitual e inquietante.

 

As gêmeas Kitt são, pois, expoentes de uma pós-modernidade artística a ser ainda compreendida e assimilada. Tina Guo, David Garrett, a banda finlandesa Apocalyptica seguem, mutatis mutandis, o mesmo caminho; mas, particularmente, considero Camille e Kennerly as mais autenticamente inovadoras dentro desse possível grupo, mesmo sem serem compositoras como a virtuosíssima Tina, e sem terem recebido da indústria fonográfica, até o momento, o apoio de uma filarmônica ao fundo.

 

Creio ter sido o primeiro lusófono a entrevistá-las, guardo muita satisfação nos contatos travados e espero ver essas beldades se -- catasterizarem no firmamento como forjadoras de uma música representativa do que costuma ser designado nos meus textos, há muito: a terceira pós-modernidade, em devir.

 

 

Igor Buys

09 de fevereiro de 2017

 

 

Janela para postagem do canal de Camille e Kennerly Kitt, as "Harp Twins"

 

 

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