SÍSIFO (PAPEL E PENA!)

Ela virá me abrir a porta como uma velha amante

Sem saber que é a minha mais nova namorada.

Vinicius de Moraes

Quando estiver à beira do abismo imoto, Se dono ainda do meu punho eu for, Hei de querer papel e pena!... Hei de retratar do anjo negro e feminil O seu olhar fatídico, O magro seio, a mão sem leite, A foice rubra já de mim a esvair-me... E eis que, dessarte, se me leva Ela, Eu lhe roubo o mistério e nele — vivo! Como um Sísifo poético, irreverente, Passando a ser a sua sombra a cada dia, Assim como foi Ela, infanda, A minha e a dos meus pais e filhos. Sim: no útero da letra, Eternamente grávida, Eu me moverei letárgico, Hipotético, E cada vez que a luz de uns olhos Trespassar os meus vitrais de ecos, Minh’alma cantará de novo! A folha é uma lagoa de lua e espelho Que aos meus sonhos bebe, E às minhas tintas, E eu nela reverbero — qual Narciso, Já me afogo, e, enfim: renasço! E me eternizo... A folha é a uma vela inflada, Branca contra o aflato surdo, sussurrante Que a impele e canta, mornamente, Dando asas às minhas caravelas... Ai, que me tragam algum papel e pena! por um deus qualquer! Quando à beira da falésia e do mar cego eu bruxulear!... Hei de riscar no mármore etéreo O meu último arrepio, a náusea derradeira, O medo; E uma saudade apaziguada deixe ver, Magenta e ocra, a cena de uma vida inteira: Vida excepcional, onde frustrações e vitórias Completam-se num todo desarmônico, ilógico, Mas intencional e metodicamente urdido. Que a folha, então, se me dê Como a púbis sem mácula da moça, E que o meu verso final tenha o sabor Do primo: a mesma surpresa diante Da palavra nua, a mesma virgindade; Um leve tremor, trespassando-me a mão, Continue no fone e na forma, Até que me colha, de entre esplêndidos fractais, Em arquejos, suores, contrações e ânsias... O silêncio. Igor Buys in Versos Íncubos; 2014

Reprodução: óleo sobre tela de Leonid Afremov

Postais em destaque
Postais recentes