BARRABÁS

O sol ferido
esvaindo-se
rasteja aos pés
que passam,
se cruzam
e não param
como um podólotra.
Ou santo a quem
gritaram Barrabás.
 
Cada transeunte
carrega em si
um balde de noite
e despeja chiante
contra o incêndio
triste. Linchado.
Pisado e esquecido.
 
Um mendigo se vai
apagando ao lado
duma estilha de âmbar.
 
Centro da Cidade.
 
Pessoas desaparecem

apressadas
pelos buracos do metrô.
 
Um cão esquálido
urina o último — Ouro
sobre um poste preto.
 
A brasa dum cigarro
já parece mais viva.
 
A guimba de outro
está suja de batom.
E erra o bueiro...
Um olhar azulíssimo
erra o meu. Depois
o acha. Castanho,
ocra. Folhas secas
se esmigalham ao
vento. Vozes vagas
mal e mal se ouvem.
Mas se entendem bem.
É secretária. Vascaína.
Mãe. Crê num deus.
 
Passos ladeados
procuram agora um
botequim, um refúgio.
Há que haver um
refúgio pra tamanho
degredo. Preto e prata.
 
Degraus vazios descem
os buracos do metrô,
sem pressa.
 
Um letreiro amarelo.
A cerveja azulada.
Curva morna do seu
pé dentro do scarpin.
E a borda do copo
borrada de batom.
 
 
Igor Buys
(heterônimo Rodrigo Penna Arruda)
06 de setembro de 2014

 

 

 

Reprodução: G. H. Breitner; "Esboço De Pessoas na Rua"

 

 

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