[Texto de 19/03/2016] SE LULA FOR PRESO OU TORNADO INELEGÍVEL O CANDIDATO QUE REPRESENTE O SEU LEGADO ESTÁ ELEITO

/2016Algo com que a direita parece realmente não atinar é isso: que, se Lula for arbitrariamente preso ou tornado inelegível, o candidato para as eleições presidenciais de 2018 apoiado por ele, ou que represente o seu legado, — estará eleito, desde então, inexoravelmente.

A prisão de Lula será entendida como inteiramente arbitrária pelo eleitorado e pela comunidade internacional, e nada pode modificar isso. Quanto mais desmesurado o espetáculo midiático que se venha a fazer a respeito, tanto maior será a resposta do eleitorado no sentido de perceber o ex-presidente como vítima, como mártir e como herói absoluto do povo brasileiro.

 

A quem tem olhos de ver foi possível vislumbrar ontem, sexta-feira, dezoito de março, através das lindas manifestações que cobriram de vermelho todo o País, que a iminência de golpe de estado já une as esquerdas, os movimentos sociais, a juventude, as pessoas mais intuitivas, as quais, mesmo sem serem eleitoras do PT, percebem que há algo de muito errado no que está sendo feito ao político mais popular da nossa história.

Com a eventual efetivação do golpe, bastará que se escolha — e isso precisa começar a ser pensado desde já — um nome de todo inesperado para ser esse “candidato de Lula”. E de um Lula martirizado, brutalmente injustiçado, em vias de se tornar um Nelson Mandela brasileiro, chegando a poder ser cogitado concretamente, mais adiante, para uma função na ONU.

 

Ora, se Dirceu e Genoíno, a despeito da fúria midiática com que se os açoitou, se tornaram heróis inquestionáveis para a militância, o que esperar de Lula ao sofrer a mesma espécie de crucificação e, ainda, sem qualquer indício minimamente aceitável de conduta irregular?

Se, por outro lado, Lula chegar a ser preso e, em seguida, inocentado, antes da eleição de 2018, a tempo de poder se candidatar, quem será candidato viável contra ele?...

A direita teria muito mais chances de eleger o próximo presidente da república, se tivesse deixado Dilma governar e se poupado de enveredar pelo afã golpista. A pretensão de incriminar Lula diante do povo brasileiro ou de qualquer observador imparcial, em qualquer parte do mundo, tange o ridículo.

 

Mas, infelizmente, precisamos, como no xadrez, antever todas as hipóteses à frente.

E a prisão arbitrária de Lula é uma dessas hipóteses. A mais dura, sem dúvida, a mais penosa e difícil de aceitar. Mas não, deveras, a mais perigosa para o País no que concerne à manutenção da soberania nacional.

 

O maior presente que o dia de ontem nos trouxe, maior ainda que a beleza da unidade formada em torno do ideal de democracia, numa época de escalada do fascismo no País, foi o ressurgimento da militante histórica Dilma Rousseff sendo, novamente, Dilma Rousseff, como sempre se quis e tanto se esperou.

 

No seu pronunciamento de ontem, a presidenta alerta: quem prepara escutas ilegais para um presidente da república, em qualquer país, tende a ser preso.

Podemos, quiçá, nos arriscar a prever que: se Lula for preso, Moro também o será, e quem julgará o ex-presidente nesse processo de exceção não será, finalmente, o xerife da família Marinho na República do Paraná.

 

Moro é inteiramente descartável para a direita. Como Joaquim Barbosa também o era. Sua eventual prisão, para os que o tornaram em pseudo-herói, a fim de guardar os seus próprios interesses, nada representará.

 

Para nós, por outro lado, uma possível prisão de Lula representa muito sangramento moral e muita angústia. E esse contraste talvez deva nos levar a uma reflexão sobre até que ponto vale a pena ainda, sobretudo, depois que se instituiu a “modinha do ‘impeachment”, ter os nossos principais quadros explicitamente expostos aos recursos jurídicos do golpismo constitucional.

 

Explico-me. Se, por exemplo, Lula for temporariamente tornado inelegível, como já dito, o PT, pela primeira vez na sua história, graças à tacanhez da direita, poderá vir a eleger um presidente com facilidade, — porque até aqui, nunca fora fácil antes.

E, uma vez eleito esse presidente, cujo nome deve ser uma completa surpresa para a oposição, o ex-metalúrgico Luiz Inácio ainda poderá ser, briosamente, ministro chefe da casa civil. Para garantir essa possibilidade, existe, agora mais que há duas semanas atrás, todo um grupo de advogados atuando em seu favor, e em favor da presidenta Dilma, como um time, conjuntamente, no ataque e na defesa, de modo mais arrojado. E nisto incluam-se Cardozo, na AGU, e, também, como não, Aragão no Ministério da Justiça.

Desta forma, o próximo governo será ainda, como tanto temem os quinta-colunistas, um governo fortemente marcado pela presença do ex-operário chamado Lula da Silva em seu núcleo duro de poder.

 

Dilma sendo Dilma — um sonho que, até aqui, ficara frustrado para grande parte da militância de esquerda e de todo o seu eleitorado — ainda poderá ser ministra da secretaria de governo no próximo governo. E, a partir dessa posição, se fazer, finalmente, — temida pela retidão e firmeza das suas respostas face aos problemas políticos de um País que engatinha da barbárie ditatorial, do pau-de-arara, para a democracia plena.

Sim: há um certo exercício de sadismo da nossa parte ao descrever nestas linhas o pesadelo máximo dos fascistas. Que nos seja perdoado.

 

Em suma, o que cumpre consignar é o seguinte.

 

Se Lula, por força de um golpe de estado constitucional, um “golpe brando”, não puder ser o próximo presidente progressista do Brasil, então, quem sabe, valha a pena termos em seu lugar um altruísta e estóico — mais de um nome me ocorre, mas não cabe citá-los —; pessoa ilibada, tanto mais difícil de atacar quanto possível, e tendente a trabalhar em equipe, nunca de forma personalista. Esse presidente teria, ainda, de preferência, um vice-presidente escolhido consoante os mesmos critérios. Precisamos do presidencialismo para progredir; mas podemos ter um presidencialismo de equipe, por assim dizer. Pois com essa linha de raciocínio começando a ser burilada para ser posta em prática, toda a eficácia da teoria do golpe brando (v. Gene Sharp) pode ser neutralizada.

 

 

Igor Buys

19 de março de 2016

 

 

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