OBSOLESCÊNCIA DA MORTE

A morte é de uma mesquinhez absolutamente grosseira e inútil.
Pudera mentir-se tanto para mitigar a dor da sua incoerência patética,
                               [da sua avassaladora inoportunidade.

Anelo pelo dia em que o humano, finalmente, abdicará de morrer.
E, segundo as ciências, essa bem-aventurança está bem próxima!

Transplantes de órgãos, e de órgãos clonados crescidos em estufas;
engenharia e reengenharia genéticas;
medicina nanorrobótica;
sangue artificial.

Ah, que muito em breve, poder-se-á viver por um milênio!
E: sempre jovens!
                   A morte está à beira da obsolescência.

A única tristeza que me fica em ver crescer a geração bendita
do Homo immortalis
é não poder eu mesmo acompanhá-la... É me saber finito e rumando
para o apodrecimento e o verme, o esquecimento e o granito negro
mental e desmental, antimaterial. O sempiterno emparedado, infando.

Ao menos, me fiquem as letras que, se a letra mata, também eterniza;
se cega, também guarda luz e eco. E encerra inteligência artificial!...

Quiçá a letra é o primeiro nanorrobô contra a morte.


Igor Buys
In Versos Íncubos, ed. Scortecci, 2014

 

 Foto doméstica

 

 

Tags: Marcelo Freixo

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