CARTA ABERTA A CLÁUDIA CRUZ

 

 

Prezada Jornalista Cláudia Cruz:

 

 

Antes de qualquer coisa, quero consignar que é com muito respeito e espírito de solidariedade que me dirijo à senhora.

 

Como não assisto muito televisão, principalmente canais abertos, e os da Rede globo, inclusive, são todos bloqueados com senha na minha casa há alguns anos, lembro-me do seu rosto de muito tempo atrás e, de certo modo, relacionado aos meus vinte e poucos anos e aos da senhora

 

Temos, ainda, alguns amigos em comum na congregação Sara a Nossa Terra, de que a senhora já fez parte.

 

Ainda que de somenos importância, esses elementos, para o só efeito de me ajudar a vê-la como uma pessoa humana, e não apenas como um personagem do momento histórico que vivemos, têm certo peso íntimo, consigno ademais.

 

E é, portanto, à senhora como pessoa humana que pretendo tentar fazer chegar as ponderações que se seguem, valendo-me das facilidades atuais de comunicação via rede, e com o máximo de zelo sincero no sentido de não produzir impacto emocional desnecessário e deselegante sobre uma mulher elegante, temente e, sobretudo, mãe.

 

A política no Brasil tem meandros complexos e até cruéis, como bem sabe.

 

Recentemente, um homem que conhecia muito de tais meandros, um empresário, teve a sua existência terrena ceifada de modo deveras suspeito. O episódio, por força da coincidência de datas e outros fatores, remeteu a opinião pública, de imediato, ao caso de outro empresário que “sabia demais”: PC Farias.

 

Política é como lingüiça, diz o clichê: quem vê fazer não come. E saber demais sobre essa triste realidade, bem como acumular condições para modificar amplamente a conjuntura envolve riscos bastante concretos.

 

Guardavam condições para afetar de modo decisivo a conjuntura dos anos sessenta e setenta homens tão poderosos ao seu tempo como Jango, identificado ao trabalhismo, Juscelino, liberal e centrista, Lacerda, de perfil mais conservador.

 

Mais recentemente na nossa história, Tancredo Neves, depois, Ulisses Guimarães foram vistos como potencialmente perigosos para a manutenção do status quo pela classe política, como também sabemos.

 

E, em relação a todos esses nomes citados, tanto como a outros vários não citados, são plausíveis desconfianças as mais inquietantes que a Historia ainda não soube desfazer.

 

Repito que não desejo alarmá-la nem permitir a mim mesmo incorrer no mau-gosto desnecessário e imperdoável em relação à senhora, sendo quem é, de pôr isto em termos mórbidos.

 

Pode e deve ser encarado de outro modo: como provação. E, neste sentido, uma áurea possibilidade de superação e galardão perante o Altíssimo.

 

Errar, todos erramos, Dona Cláudia; quem não tiver nenhum erro contado entre os seus atos que atire a primeira pedra sobre o semelhante; não é verdade?

 

Davi errou muito; seus desvios de conduta superam em gravidade os da larga maioria dos homens e, no entanto, está escrito que foi amado por Deus.

 

Ora, pessoalmente, não concordo com a visão política do senhor seu marido e não seria, em qualquer hipótese, um defensor dele.

 

Porém avalio, como muita gente mais tem feito, — da esquerda, do centro, e da ala mais conservadora —, que, neste momento histórico tão conturbado e especial que o País atravessa, ele possa vir a ter uma atuação redentora, não só para si mesmo e para a senhora e a senhorita sua filha, mas, outrossim, em relação ao futuro das nossas gerações.

 

É preciso ter muita força interior para levar a cabo o que alguns chegam a esperar dele, hoje. E esse elogio posso fazer, sem hipocrisia, ao seu senhor seu marido: creio, honestamente, que ele possua essa força e que, se desejar, pode ajudar a passar o Brasil a limpo.

 

Seria um grande desafio de superação e, como se diz, amiúde, no meio evangélico, de — virada diante de uma situação extremamente adversa e perigosa, tanto para ele próprio, como para toda a família.

 

Por conta, inclusive, do processo a que respondem, solidariamente, grassa que, não só ele, Eduardo Cunha, mas também a senhora, como jornalista e mulher culta, e mesmo a senhorita sua filha, moça que transitaria pelos corredores do poder, segundo o G1, saberiam muito sobre os bastidores da cena política... Inclusive, no que encerra de menos grato, creio estar sendo claro, embora não excessivamente direto, porque entendo que seria ocioso e, neste sentido, até mesmo um insulto a uma mulher inteligente como a senhora.

 

E, enfim, essa situação, francamente, é de imensa complexidade, Dona Cláudia. Não tenho, de mim, a menor dúvida sobre os riscos e espero, realmente, que a senhora também não tenha. Mas, por outro lado, presumo que saiba não avaliar tal quadro senão, já se disse, como provação: como desafio e possibilidade da mais alta purificação e — uníssono reconhecimento!

 

O caso Morato lançou novas luzes sobre a frase de Jucá: “o Cunha está morto, esquece Cunha”, já tenho comentado em mídias sociais.

 

Todavia, com o seu auxílio emocional, guardados os atributos morais e espirituais que a senhora obviamente reúne, o senhor seu marido tem condições de, — como Sanção, pôr abaixo, subitamente, toda essa estrutura que ora dá sinais claros de estar se voltando contra ele e a família. E esse gesto não seria esquecido por ninguém, porque beneficiaria a todos, exceto a uma máfia mesquinha arraigada nos três poderes do Estado.

 

Apenas a omissão e a hesitação excessivas podem vir a ser irreversivelmente trágicas; fazer a coisa certa na hora certa é de todo seguro e provaria, ainda uma vez, para conforto de todos e cada um, que nós, criaturas humanas, com os nossos altos e baixos, nossos dilemas pessoais, idas e voltas, somos, enfim, o sal da terra e sempre temos nas mãos, até o último instante das nossas jornadas, a chance de virar a mesa e consagrar a — Verdade e a Vida.

 

 

Cordialmente,

Igor Buys, poeta.

 

 

Foto doméstica

 

 

Tags: Marcelo Freixo

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