Protógonos

SEXTO ATO

X – O Bobo, O Andarilho
 


Despertei... E tudo era o negro, o nada, o nunca.

Pus-me de pé.
Uma corda de pura luz violeta
Desprendeu-se do abismo infinito e me chegou às mãos.

Segurei firme nessa corda e comecei a escalar o vazio.

A certa altura da minha ascese, fui avistando
A moldura de uma porta entreaberta em meio ao nada:
Havia luz por trás da porta. Estendi a mão na direção
Do absurdo portal... e este se franqueou...
Uma sala de paredes brancas e iluminação fria
Convidou-me. Adentrei. Seres aparentemente
Lapidificados, vestidos de branco
Rodeavam-me. Eram médicos e enfermeiros.
Sobre um leito, um homem com a fronte
Enfaixada era o alvo de quase todos os olhares.
Outros olhares fixavam-se em uns gráficos
Com linhas luminosas. Havia muitos fios
E tubos presos ao corpo do enfermo.

Percebi, de súbito, que aqueles seres
Moviam-se, sim, a uma velocidade quase..
Ora, quase imperceptível para mim.

Sobre o corpo do homem enfaixado
Um espírito preso a ele por fios platinados
Tateava, aturdido, com os dedos cegos
Entre os cabelos colados uns aos outros
Por um sangue muito antigo e endurecido,
Uma fenda ampla e funda... como o golpe
De um machado, ou de uma foice, não sei.

No chão, ao pé de mim,
Notei um crisol.
Dentro do frasco havia
Um líquido negro,
Espesso e impenetrável...
Pus o crisol na estante de livros,
Entre os tomos menos prestigiados.

Observei a cena durante algum tempo.

Depois, voltei-me para um cabide de tripé
Junto a uma segunda porta do recinto.
No cabide, havia um chapéu-coco,
Um sobretudo e uma bengala de ponta
Retorcida, curva, como um cajado.

Vesti o sobretudo, pus o chapéu-coco
Na minha cabeça, tomei a bengala.
Abri a porta e uma cidade palpitante,
Se me desvendou; carros, ônibus,
Muita gente indo e vindo em frenesi.

Voltei-me novamente para a cena
Imota no interior do curioso recinto.

No bolso do sobretudo encontrei
Uma carta, uma lâmina do Livro de Hermes:
Era O Bobo, O Andarilho.

Girei, então, a bengala em torno do pulso,
Dei de ombros...

E saí.

Fim