• poesia

O AMOR É AMIGO (2a. versão)


O amor não sente ciúme. Não necessita de se concretizar para além da amizade terna.

O amor não perde oportunidades reais, não claudica, não hesita. Sabe querer e sabe aceitar o que a vida nos dá; reflete o sorriso, bebe a lágrima, segura o pulso. Abraça como irmão, abraça como esposo, ainda que o esposar dure apenas uma noite, uma quinzena.

Nada pede, mas tudo oferece; não é inconstante, não muda, não envelhece, não se envaidece. Não insiste, não desiste: está sempre feliz, está sempre contente. O amor é calmo, sereno; a paixão, o desejo cru, em havendo, não o modificam ou subvertem:

paixão é chama: sempre, por definição,

se apaga. Quem nutre paixão

quer ver o outro doente, morrendo,

gemendo, rangendo dentes por si

ou sua ausência. Paixão é morte.

Mas, quando cessa, nem as cinzas

do que fora no corpo se as encontra.

Paixão é fera que devora a si

mesma, ao seu combustível.

É de todo irrazoável.

A paixão é inimiga.

O amor transcende a razão, porém é sempre razoável. Não age de modo inconveniente; não mente, não limita, não impede outros amores paralelos, aventuras.

Não desanima nem é desanimado. O amor não prescreve com o tempo, não se reveste de preconceitos; não depende de religiões, ciências: é maior que a fé e a esperança.

O amor é amigo.

Amor e chama não raro convivem

num mesmo objeto: esta convulsio-

nando aquele; mas quando fenece

a besta, o imortal de nós resplandece.

Passarão os céus, a terra, o papiro, os poemas; mas o amor amado,

sutil ou vulcânico, momentâneo,

apenas momentâneo na experiência,

longevo, concreto ou em futuro pretérito:

o amor, esse cristal, jamais se calará.

Quem ama abraça a eternidade. Igor Buys 03 de julho de 2009 / 24 de novembro de 2019.

Primeira versão no e-livro "A Deusa e o Vampiro".

Rafaella Kalimann