• poesia; in "Manelo de Áscuas", 1999

A HORA DO BODE (OU BAPHOMET)


Ah, que o bode velho adentrou pela casa, marcando o assoalho com seus jamegões. Porta aberta: inclusão digital. Foi por instinto para a copa-cozinha. E esta era quase uma farmácia.

Bode preto, bode velho,

matuto e agreste, até se dá ares de bom,

conquanto coberto de suor seboso, espesso,

conquanto em terno incongruente

com o mais pungente,

metafísico mau cheiro.

Mas há uma mosca, ou duas,

que discordam: cofiam por ele a barba rude.

E lá vai o bode velho pela copa adentro,

à solta na farmácia doméstica.

Começa o seu mister por uma caixa

de Losartana, de Captopril, Roxflan.

Queixo que vai, queixo que vem,

jogando ao sabor da mais ingênua

e crassa ruminação das alquimias.

Passa agora ao Viagra: feitiço azul!

Envereda pelo Rivotril: controle,

— mas sem moderação! (Lógica de bode).

E queixo que vai, e queixo que vem,

sente-se já mais astuto até que o asno,

seu frater inseparável lá no quintal,

cujo QI ultrapassa o seu em trilhões.

Sim, sente-se o bode mais jovem e bom:

aristobódico! losartânico! viagresco:

quase uma reedição de — Fauno!

Passa, enfim, à cocaína, antiga fórmula

entre as fórmulas batidas, azedadas

que sabe ruminar, queixo pra cá,

queixo pra lá, no seu vetusto mister

de bode. Hum, farmácia doméstica,

entanto bandida a esconder pós

sem após... Os olhos esbugalhados

transbugalham-se, pois, e, ao depois,

o bicho bode volve a — Baphomet.

Ultrapassa já um rio negro, céu rubro,

árvores que sangram entre verde pus.

E, ao fim e ao cabo, teso: encontra-O...

Lá está Ele, cartola imponente, fraque

listrado de azul e vermelho sanguíneo.

E eis que, prostrado, clama: Aba Bode!

Igor Buys

In Versos Íncubos, 2014

Cena do filme "O Labirinto do Fauno"

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