Protógonos

QUINTO ATO


VII – Dédalo



Estou de volta ao labirinto indecifrável.
O meu nome agora é Dédalo.
É certo que já tive muitos outros nomes
E tarefas.

Eu construí este edifício.
Agora sou seu prisioneiro.
O artista perdido em sua própria arte;
O Arquiteto cativo no seio
De seu próprio engenho.
Não há saída possível.
As paredes tortuosas do labirinto,
Com seus enigmas e ilusões de ótica,
Com seus sofismas e alogismos,
É totalmente indecifrável,
Cada parede, uma muralha infrangível
Para o espírito.

Vivo aqui em companhia de meu filho
Ícaro. Por desígnio d'El-Rei.

Ao centro do prédio, existe um átrio.
Nele há estátuas rememorando feitos
Como o de Teseu, com a cabeça do Minotauro
Sobre o ombro; o de Perseu, com Górgona
Vencida aos seus pés; e cada um dos trabalhos
De Heracles está aqui eternizado
Em mármore alvo e imagens de cinzeladura
Irretocável.

Uma fonte que jamais projetei,
Posta aqui, quiçá, pelos deuses,
Embebe-se de águas negras,
Opacas, intraduzivelmente
Sombrias.

Árvores frutíferas espalhadas pelo pátio
Nos mantêm vivos e a água da chuva
Mata a nossa sede.

Os múltiplos portais que conduzem
Às entranhas do labirinto devolvem-nos
Sempre a este átrio.
Meu filho Ícaro, Jovem, sonhador e intempestivo,
Neste instante está a se arriscar
Pelos corredores movediços,
Cheio de cálculos e lógicas nas mãos,
Em busca de uma saída impossível.

Eu, há muito, desisti deste dilema.
Prefiro contemplar os muitos pássaros que
Vêm compartilhar dos frutos que nos sustentam
E, em seguida, alçam vôo para fora
Do edifício, ganhando os céus.

Ah, Ícaro, pobre Ícaro desolado,
Ei-lo que acaba de adentrar por um dos portais,
Desembocando, mais uma vez,
Neste pátio de contemplação enorme
E inerme, inerte espera da morte...