Protógonos

VIII – Transcendência



É tempo de eu falar ao meu jovem filho
Sobre algo em que venho trabalhando.

Com as penas dos pássaros que esvoaçam
Por aqui, gravetos e cera furtada a uma colônia
De abelhas, estive a construir dois pares
De asas. Trata-se de um engenho simples.
Deveras, pretendo com ele muito mais induzir
Ícaro a um estado propício de espírito
Do que qualquer outra coisa.

A verdadeira estratégia consiste em transcender
Deste pátio, tornando os nossos corpos menos
Densos e mais leves que o ar através de uma técnica
Chamada pelos orientais de meditação.

Segundo uma tradição muito antiga,
Atingido um certo grau de esvaziamento
Da mente — é possível levitar,
Isto é, tornar o corpo capaz de flanar,
Galgando as alturas e livrando-se,
Ao sabor do vento, deste simulacro
De existência.

Não se trata de um feito fácil,
Mas nos sobra tempo aqui
Para tentá-lo e meu filho
É um jovem brilhante, cuja verve
Intelectual me surpreende a cada dia
E que nunca se furta a confrontar
O novo.