Protógonos

II – Gaia

 


Ergui novamente o tórax, desta feita, bem devagar.
Minha cabeça doía e latejava violentamente.
Sentei-me em posição de lótus.
Com as mãos cegas busquei a minha volta
O tato de alguma coisa...
Mas os meus dedos
Impotentes apenas dissolviam-se no líquido
Negror petrificado e sequer na minha própria face
Encontravam eles forma conhecida ou segura...
Quero dizer que mesmo a minha face ausente
Parecia tão fugitiva ao tato, tão presumida...
Como uma idéia... Sim, a idéia nua e fria
De uma face... E, ainda: uma face de todo desconhecida
Estranha a mim.

Pus-me de pé sobre o vazio.
As solas dos meus pés não tinham certeza do que as sustentava:
Se algo abaixo delas preexistia aos meus passos vacilantes,
Ou se estes é que constituíam, no cimento oco da vacuidade,
O seu confim mal definido...
Dei três passos e estanquei.
Chamei a esta base de sustentação de Terra;
Com a voz do pensamento murmurei o seu nome: Gaia.
E esta, então, me respondeu, morna e acolhedora: Filho.